Estudos recentes indicam que o pepino-do-mar-preto (Holothuria (Microthele) whitmaei), uma criatura marinha que lembra um pedaço de cocô, possui uma longevidade muito superior às estimativas anteriores, podendo ultrapassar os 100 anos de vida. Segundo uma pesquisa publicada na revista científica iScience, realizada por uma equipe de cientistas australianos, alguns exemplares dessa espécie podem chegar aos 123 anos de idade, uma descoberta que altera a compreensão sobre sua expectativa de vida.
A espécie é encontrada em regiões do Oceano Pacífico e do Oceano Índico, sendo considerada uma iguaria em diversas culturas. No entanto, o pepino-do-mar-preto está atualmente ameaçado de extinção devido à intensa pressão da pesca comercial. Conhecido como “bêche-de-mer”, seu consumo envolve carne cozida, seca e defumada, o que impulsionou a exploração predatória, especialmente na Austrália. Em 1999, a captura foi proibida na Grande Barreira de Corais, uma das principais áreas de ocorrência da espécie, devido ao declínio populacional causado pela pesca excessiva.
A descoberta sobre a longevidade do pepino-do-mar foi possível graças a uma pesquisa iniciada há mais de duas décadas. Em 2000, pesquisadores do Australian Institute of Marine Science (AIMS) coletaram pequenas amostras de tecido de exemplares na Grande Barreira de Corais, com o objetivo de estudar sua biologia. Como os marcadores físicos utilizados na época se deterioravam rapidamente, a equipe optou por usar o DNA como uma forma de identificação individual dos animais. Essa técnica permitiu uma comparação precisa entre amostras coletadas em diferentes momentos, possibilitando uma análise longitudinal inédita.
Em setembro de 2024, os cientistas retornaram ao local de coleta, na região de Bird Islet, na ilha australiana de Lizard. Foram encontrados 53 exemplares vivos, dos quais 31 apresentaram correspondência genética com amostras coletadas em 2000. Essa relação revelou que pelo menos 60% dos animais analisados naquela ocasião ainda estavam vivos após 24 anos no mesmo habitat. Uma observação surpreendente foi que esses animais praticamente não cresceram durante esse período. Em 2000, os exemplares já eram adultos, medindo entre 26 e 42 centímetros, e, duas décadas depois, a maioria deles apresentava redução de peso e comprimento, com uma média de perda de 21% do peso e 14% do tamanho.
Com base nos dados de sobrevivência, os pesquisadores estimaram uma taxa de mortalidade anual de aproximadamente 3,7% entre os adultos da espécie. Essa taxa sugere que cerca de 1% de uma geração poderia atingir a idade de 123 anos, embora os autores ressaltem que essa estimativa seja conservadora, já que alguns animais podem ter deixado a área de estudo ou não terem sido detectados.
A longevidade do pepino-do-mar-preto é agravada por seu crescimento lento. Durante as duas expedições de coleta, os cientistas não encontraram exemplares juvenis, indicando que a população se renova de forma extremamente lenta. Essa característica representa um problema sério para espécies submetidas à pesca intensiva, pois, apesar de sua longa vida, a reposição de indivíduos na natureza é demorada, dificultando a recuperação das populações.
Além de seu valor comercial, os pepinos-do-mar desempenham um papel ecológico importante nos recifes de coral. Alimentando-se de sedimentos no fundo do mar, eles ajudam na reciclagem de nutrientes e na movimentação do sedimento, processos essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas recifais. Contudo, os recifes enfrentam crescente ameaça devido ao aquecimento global, que intensifica o estresse causado pelas mudanças climáticas. Os pesquisadores alertam que a retirada de espécies ecologicamente relevantes, como os pepinos-do-mar, e a perda dos serviços que oferecem, dificultam a gestão sustentável dos recifes de coral, agravando o impacto das ações humanas sobre esses ambientes frágeis.









