As eleições presidenciais no Brasil continuam a ser marcadas por uma estratégia que prioriza a exploração de escândalos, temas morais e a disseminação de informações falsas, enquanto os programas de governo permanecem em segundo plano. Essa tendência, que se repete desde o início da República, favorece candidatos com passados controversos ou ligados a práticas ilícitas, dificultando o debate sobre propostas concretas para o país.
Desde 1894, quando o voto ainda não era secreto, até os dias atuais, o cenário eleitoral brasileiro tem sido permeado por episódios de manipulação e uso de fake news. Durante o governo de Getúlio Vargas, por exemplo, e ao longo da Era JK, a política foi marcada por estratégias de ataque e desinformação. Um episódio emblemático foi a crise das cartas falsas de 1921, considerada uma das maiores fake news do século passado, que quase levou à derrota do então presidente Artur Bernardes, ao inflamar tensões militares e populares.
A prática de explorar escândalos e temas morais como ferramenta de campanha se intensificou na redemocratização, com exemplos notórios. Em 1989, Fernando Collor de Mello utilizou a exposição da filha de Lula, Lurian, para atacar o PT, enquanto em 1994, boatos de que Lula iria estatizar todas as atividades econômicas e criar casas multifamiliares alimentaram o clima de medo, ajudando a consolidar a vitória do então candidato do PSDB, Fernando Henrique Cardoso, sob o mote “a esperança vai vencer o medo”.
Ao longo dos anos, diversos episódios de desinformação marcaram o processo eleitoral. Em 1998, o Dossiê Cayman, uma mentira envolvendo uma empresa fantasma e uma suposta sociedade com Mario Covas, foi utilizado para atacar FHC. Na eleição de 2002, a líder nas pesquisas, Roseana Sarney, foi derrubada após a Polícia Federal encontrar R$ 1,3 milhão em espécie na empresa de seu marido, Jorge Murad, fato verdadeiro que contribuiu para a deterioração da imagem do clã Sarney. Ainda naquele pleito, boatos infundados de que Lula iria privatizar empresas estatais circularam intensamente, fortalecendo a narrativa do medo e ajudando na sua vitória.
Durante o mandato de Lula, a campanha de 2006 foi marcada por temas morais e religiosos, especialmente sobre o aborto, que polarizaram o debate. Em 2014, a reeleição de Dilma Rousseff quase foi frustrada pela morte de Eduardo Campos e pela ascensão de Marina Silva, que ameaçou a polarização tradicional. A campanha foi marcada por vídeos produzidos para desconstruir a imagem de Marina, reforçando a estratégia de manipulação.
A prisão de Lula na Operação Lava Jato, em 2017, e o crescimento da rejeição ao PT facilitaram a eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Sua campanha se apoiou na narrativa da antipolítica, do moralismo e do combate à ideologia de gênero, alimentada por fake news e robôs nas redes sociais. O governo Bolsonaro, marcado por negacionismo na pandemia, deixou quase 700 mil brasileiros mortos, além de contribuir para a desconfiança nas vacinas e nas urnas eletrônicas, além de incentivar a cultura da violência por meio do aumento na aquisição de armas.
O cenário de 2026 apresenta riscos semelhantes, com a possibilidade de eleição do filho do ex-presidente, ligado às milícias e ao crime organizado. O jornal O Estado de S. Paulo destacou que essa candidatura representa uma ameaça à democracia, devido ao histórico de vínculos com grupos paramilitares.
Desde a promulgação da Constituição de 1988, o Brasil realiza sua décima eleição presidencial com voto livre, direto e secreto, virtudes conquistadas após anos de ditadura militar. Ainda assim, o panorama eleitoral permanece dominado por estratégias que priorizam escândalos, mentiras e ataques pessoais, muitas vezes às custas de propostas concretas de governo. Nesse contexto, o país enfrenta o desafio de escolher um caminho que valorize a transparência e a discussão de ideias, em meio a uma campanha marcada por manipulações e polarizações.
Mary Zaidan é jornalista







