No cenário da eleição presidencial, os candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terão de conquistar uma parcela significativa do eleitorado que não apoiou nenhum deles no primeiro turno. Dados oficiais indicam que, considerando votos válidos, abstenções, votos em branco e nulos, o universo total de eleitores que não optaram por Lula ou Flávio soma aproximadamente 48,7 milhões de pessoas. Essa quantidade representa a soma de 9,3 milhões de votos dados aos candidatos que não avançaram ao segundo turno, além de mais de 39 milhões de eleitores que optaram por votar em branco, anularam o votação ou não compareceram às urnas na data do primeiro turno.
De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com 99,99% das seções eleitorais apuradas, os candidatos eliminados receberam um total de 9.3 milhões de votos. As abstenções atingiram 33,4 milhões de eleitores, enquanto 2,3 milhões optaram por votos em branco e aproximadamente 3,6 milhões anularam seus votos. A soma desses números — votos nos candidatos derrotados, brancos, nulos e abstenções — evidencia o potencial de migração de votos e o desafio de ambos os candidatos de ampliar suas bases no segundo turno.
Esse universo de eleitores representa uma grande oportunidade de crescimento para os candidatos, que precisarão desenvolver estratégias específicas para atrair esses segmentos. Enquanto os votos nos candidatos que ficaram de fora representam um potencial de transferência mais direto, os eleitores que votaram em branco, nulo ou não compareceram às urnas dependem de uma nova decisão no segundo turno, influenciada por fatores como a campanha, propostas e o contexto político do momento.
A partir de agora, as campanhas de Lula e Flávio terão que focar na ampliação de suas bases eleitorais. Além de buscar o apoio dos eleitores que apoiaram os candidatos eliminados, as estratégias deverão incluir a mobilização de quem não votou na primeira rodada ou optou pelo voto em branco ou nulo. Segundo o cientista político Gabriel Amaral, o primeiro grande desafio será compreender as razões pelas quais esses eleitores decidiram não votar em Lula ou Flávio, mesmo tendo outras alternativas disponíveis.
Amaral destaca que Flávio Bolsonaro, apoiado por uma base de direita e centro-direita, precisa convencer especialmente o eleitor antipetista que, mesmo diante de Lula, preferiu votar em outro candidato. Por sua vez, Lula enfrenta o desafio de oferecer ao eleitor moderado e insatisfeito com o governo motivos convincentes para votar nele, além da rejeição ao bolsonarismo. Ambos os candidatos também terão que repensar a linguagem de suas campanhas, que no primeiro turno foi suficiente para mobilizar suas próprias bases, mas que agora precisa dialogar com eleitores indecisos ou que migraram para a terceira via.
O apoio de candidatos derrotados pode influenciar a decisão de seus eleitores, mas não garante uma transferência automática de votos. Segundo Amaral, esse apoio fornece estrutura partidária, palanques regionais e sinalizações políticas, podendo atuar como uma espécie de autorização para que seus eleitores considerem votar em alguém que não foi sua primeira opção. A proximidade ideológica entre candidaturas também pode aumentar esse efeito.
Especialistas apontam que o segundo turno exige uma mudança de estratégia, com foco na busca por convergências com eleitores de centro, direita e terceira via, sem presumir transferências automáticas. Murilo Borsio Bataglia, doutor em Direito Constitucional, reforça que o desafio político envolve ampliar a legitimidade para governar um país marcado por pluralidade de pensamentos, por meio de alianças, compromissos programáticos e capacidade de diálogo, além de acordos entre partidos.
Temas como economia, emprego, segurança pública, soberania digital, influência estrangeira, petróleo, inteligência artificial, educação, saúde e políticas sociais devem estar no centro do debate neste momento. Segundo Borsio, o eleitor avalia não apenas o desempenho do governo, mas também as perspectivas para o futuro, demandando de Lula e Flávio propostas que transmitam confiança, governabilidade e capacidade de articulação política. A Constituição brasileira, por sua vez, estabelece princípios como cidadania, dignidade humana e pluralismo político, que devem nortear o processo eleitoral e orientar a formação de alianças e programas de governo.
Para o segundo turno, a combinação de avaliação econômica, confiança, rejeição e a capacidade de apresentar um projeto de país que ultrapasse a polarização será decisiva na definição do resultado, reforçando a necessidade de estratégias que conciliem estabilidade institucional e representatividade democrática.









