As obras de construção do muro na fronteira entre os Estados Unidos e o México, projeto liderado pelo ex-presidente Donald Trump, têm causado prejuízos não apenas à imigração, mas também ao patrimônio histórico da região. Em abril deste ano, empreiteiros envolvidos na construção danificaram o geoglifo conhecido como Las Playas Intaglio, considerado um símbolo sagrado das tribos indígenas locais. A descoberta de que o local possui uma antiguidade estimada entre 6,5 mil e 7 mil anos — muito superior ao período de construção das pirâmides do Egito, que datam de aproximadamente 2700 a.C. a 1500 a.C. — intensifica a preocupação com a preservação de registros arqueológicos na área.
Segundo Verlon Jose, representante da tribo Tohono O’odham, o incidente poderia ter sido evitado. Em comunicado, ele destacou que os operários receberam alertas prévios de que o sítio era monitorado por uma equipe de proteção cultural, e, mesmo assim, as obras prosseguiram. “O local também era uma parte insubstituível da história dos Estados Unidos, algo que ninguém poderá recuperar”, afirmou.
Las Playas Intaglio é uma representação de um peixe gigante, criada por humanos em um antigo campo de lava, que evidencia a intervenção humana na paisagem há milhares de anos. A técnica utilizada para determinar a idade do geoglifo revelou que ele pode ser ainda mais antigo do que se pensava inicialmente, com estimativas que variam de 6.500 a 7.300 anos. Essa descoberta reforça a hipótese de que a estrutura é uma das mais antigas do continente americano, superando a datação anterior de 1.5 mil a 2 mil anos, baseada em análises feitas por pesquisadores em 1979.
A datação foi realizada por meio de uma técnica chamada análise de microlaminação de verniz, que compara as camadas microscópicas de uma fina camada de verniz rochoso que se forma na superfície das rochas expostas ao sol. Essas camadas, que variam de cores — preto, laranja e amarelo — indicam mudanças no clima ao longo do tempo, funcionando como um calendário natural. A análise microscópica dessas camadas permite estimar a idade do artefato, embora com menor precisão do que outros métodos mais avançados.
O resultado surpreendente revelou que o geoglifo pode ter entre 6.500 e 7.300 anos, uma idade que, na prática, representa uma estimativa mínima, já que a camada de verniz que cobre a estrutura pode ter se formado posteriormente ao seu desenvolvimento. Assim, a verdadeira antiguidade de Las Playas Intaglio pode ser ainda maior, situando-se em um período anterior ao inicialmente considerado.
Esse episódio levanta preocupações acerca do risco de danos a outros sítios arqueológicos na região da fronteira, como as Termas de Quitobaquito, local considerado sagrado por comunidades indígenas. A área, de grande relevância histórica e cultural, agora se encontra ameaçada pelo avanço das obras de construção do muro. Especialistas e representantes de organizações ambientais e culturais cobram maior atenção na proteção desses patrimônios. Russ McSpadden, do Centro para a Diversidade Biológica, afirmou que o patrimônio indígena deve receber o mesmo compromisso de preservação, solicitando que o Congresso exija registros e depoimentos que esclareçam quem autorizou as obras, quais avisos foram dados e por que as medidas de segurança, se existentes, não impediram os danos.









