O neurocientista americano Karl Deisseroth, professor na Universidade de Stanford, foi um dos três laureados com o Prêmio Nobel de Medicina de 2026, anunciado na última segunda-feira, dia 5 de outubro. A premiação reconhece suas contribuições pioneiras para o desenvolvimento da técnica de optogenética, uma inovação que revolucionou o estudo do funcionamento cerebral e abriu novas possibilidades para o tratamento de transtornos neurológicos. Deisseroth viralizou nas redes sociais ao compartilhar um vídeo em que revela aos seus filhos a conquista, momento que foi amplamente divulgado e comentado na comunidade científica e entre o público geral.
O anúncio oficial do Nobel de Medicina ocorre tradicionalmente por telefone, por volta das 11h30, horário de Estocolmo. No entanto, pesquisadores que residem em outros países, como os Estados Unidos, recebem a notícia em horários diferenciados devido ao fuso horário. No caso de Deisseroth, que vive na Califórnia, a comunicação chegou às 0h27 do horário do Pacífico, pouco antes do anúncio público. Segundo relato do próprio cientista, ele não atendeu à ligação inicial do comitê do Nobel, que foi feita às 0h27, e só posteriormente sua esposa, Michelle Monje-Deisseroth, também cientista, atendeu ao telefone. A ligação foi direta, com a pergunta: “Podemos falar com o Karl?” Deisseroth descreveu o momento como de surpresa total, com dificuldades de fala e uma sensação de impacto avassalador, embora sua esposa estivesse mais preparada para a notícia.
Deisseroth é reconhecido por suas descobertas na área de neurociência, especialmente por sua contribuição para a criação e aprimoramento da técnica de optogenética, que permite controlar a atividade de neurônios por meio de luz. A premiação foi concedida em conjunto com os pesquisadores alemães Peter Hegemann, da Universidade Humboldt de Berlim, e Georg Nagel, da Universidade de Würzburg, ambos na Alemanha. Segundo o comitê do Nobel, o trio foi selecionado por suas contribuições que abrangem desde as primeiras explorações com algas até os experimentos avançados na neurociência moderna.
A optogenética consiste na utilização de feixes de luz para ativar ou desativar células nervosas específicas, possibilitando uma compreensão mais detalhada das funções cerebrais e de circuitos neurais. O método teve início com a modificação genética de proteínas chamadas opsinas, que são pigmentos visuais presentes na retina. Essas proteínas foram inseridas na superfície de células nervosas em roedores, ativadas por pulsos de luz azul, o que permitiu controlar o comportamento dos animais de forma precisa. Posteriormente, avanços tecnológicos possibilitaram a ativação dessas proteínas por outras cores de luz, como a amarela, além de desenvolver técnicas para inserir fibras ópticas ultrafinas no cérebro de animais vivos, permitindo a manipulação de circuitos específicos à distância.
O impacto da técnica de Deisseroth na pesquisa científica é profundo, tendo possibilitado avanços no entendimento de diversas condições neurológicas. Entre as aplicações, destacam-se a reversão de sintomas de Parkinson em modelos animais, a identificação de circuitos cerebrais relacionados ao desejo social e a manipulação de comportamentos em camundongos, incluindo a facilitação ou inibição de interações sociais e o controle de sintomas depressivos. Essas descobertas representam um avanço significativo em relação às técnicas tradicionais, como estimulação elétrica e uso de medicamentos, que apresentavam limitações em precisão e efeitos colaterais indesejados.
A grande vantagem da optogenética reside na sua capacidade de oferecer uma abordagem mais seletiva e individualizada para o estudo e potencial tratamento de doenças cerebrais. Enquanto a estimulação elétrica pode afetar múltiplas células simultaneamente e os fármacos podem atuar em áreas não específicas, a optogenética permite a ativação ou inibição de células específicas, minimizando efeitos colaterais e aumentando a precisão dos estudos. O desafio atual é adaptar essa tecnologia para atuar também em outros tipos de células, como as do coração e do pâncreas, com o objetivo de futuramente integrá-la a terapias gênicas que possam tratar condições como paraplegia, por exemplo.
O Nobel de Medicina de 2026 foi o primeiro a ser anunciado na semana, seguido pelo Nobel de Física, concedido ao físico belga Francis Halzen por sua descoberta de neutrinos de alta energia, nesta terça-feira. A conquista de Karl Deisseroth reforça a importância da inovação científica na compreensão e no tratamento de doenças complexas, consolidando sua posição como um dos principais nomes na neurociência contemporânea.








