As alterações no clima global têm impactos que vão além de eventos extremos, como enchentes, secas e ondas de calor, afetando profundamente populações vulneráveis em diversas regiões do mundo. Segundo o relatório “State of the World’s Girls in 2026”, elaborado pela organização humanitária Plan International, comunidades marcadas por pobreza enfrentam consequências sociais agravadas por desastres ambientais, incluindo o aumento de gravidezes não planejadas e casamentos precoces entre meninas e jovens mulheres de 15 a 24 anos em países como Bangladesh, Quênia, Peru, Senegal e Zimbábue.
De acordo com o estudo, uma em cada dez entrevistadas relatou ter vivenciado uma gravidez não planejada após eventos climáticos relacionados ao clima, enquanto 33% das participantes perceberam um aumento nesse tipo de gestação em suas comunidades. Além disso, nove em cada dez jovens afirmaram que os desastres ambientais exercem forte pressão sobre a sobrevivência, a saúde e a estabilidade de suas famílias, evidenciando um vínculo direto entre crise climática e vulnerabilidade social.
A análise da organização revela que períodos prolongados de seca, em particular, representam um risco climático consistente para o aumento de casamentos infantis. Uma pesquisa que acompanhou 52 países ao longo de 30 anos identificou a escassez de recursos como fator determinante para o incremento de uniões precoces. A falta de chuva compromete colheitas e rebanhos, reduzindo a renda familiar durante meses ou anos, o que leva algumas famílias a considerarem o casamento de suas filhas como uma estratégia de sobrevivência econômica. Nesse contexto, o casamento deixa de ser uma decisão cultural ou pessoal e passa a ser uma resposta às condições adversas criadas ou agravadas pelas mudanças climáticas.
A escassez de recursos também altera a rotina das meninas, que costumam dedicar horas à busca por água, especialmente quando poços secam. Essa rotina desgastante dificulta a permanência na escola, privando as jovens de uma rede de proteção que oferece educação, acesso a informações sobre direitos e saúde, além de contato com serviços essenciais. A interrupção do ensino, por sua vez, aumenta a vulnerabilidade social e impede o acesso a recursos que poderiam ajudar na prevenção de gravidez precoce e no acompanhamento de gestantes.
Os desastres ambientais também comprometem a continuidade dos serviços de saúde, sobretudo os relacionados à saúde sexual e reprodutiva. Unidades de atendimento podem ser danificadas, profissionais sobrecarregados e comunidades privadas de acesso regular a cuidados essenciais, como contracepção, acompanhamento de gravidez, assistência à maternidade, cuidados relacionados à menstruação e orientações médicas. Segundo a ONG, esses serviços frequentemente são negligenciados em respostas de emergência, agravando a vulnerabilidade de adolescentes, especialmente as que já vivem em situação de risco.
O estudo destaca ainda que o impacto do clima extremo persiste durante a gestação, agravando os riscos para as mulheres e seus bebês. Exposições a temperaturas elevadas aumentam a incidência de partos prematuros, natimortos, baixo peso ao nascer e complicações maternas, especialmente em famílias com moradias precárias. Um relato de uma jovem senegalesa de 23 anos, cuja identidade foi preservada, exemplifica essa realidade: ela relata que, durante ondas de calor, precisa dormir ao ar livre com seus filhos, mesmo ciente dos riscos envolvidos, devido à falta de infraestrutura adequada.
Diante desse cenário, a Plan International defende a implementação de políticas de adaptação climática que atendam especificamente às necessidades de meninas e jovens mulheres. A organização solicita que uma parcela do financiamento destinado à adaptação seja direcionada à saúde de adolescentes, incluindo serviços de saúde sexual e reprodutiva. O desafio de financiar ações de combate às mudanças climáticas é agravado pela escassez de recursos em países em desenvolvimento, que, segundo um relatório da ONU divulgado em agosto, necessitam de entre US$ 310 bilhões (R$ 1,55 trilhão) e US$ 365 bilhões (R$ 1,82 trilhão) para ações de adaptação, mas receberam apenas cerca de US$ 26 bilhões (R$ 130 bilhões) em 2023.
Para os governos e organizações atuantes nessas regiões, proteger meninas das consequências das mudanças climáticas significa mais do que reconstruir infraestrutura após desastres: envolve garantir a continuidade da educação, a manutenção de serviços de saúde e a prevenção da transferência de vulnerabilidade de gerações mais jovens para a sobrevivência familiar, diante de um cenário climático cada vez mais desafiador.









