Um estudo recente realizado por pesquisadores da Universidade de Chicago, publicado em 8 de setembro na revista Journal of Anatomy, aponta que o uso de calçados pode promover alterações na estrutura óssea dos tornozelos humanos. A pesquisa evidencia que, especialmente, o uso de tênis está relacionado a modificações sutis na composição do osso esponjoso, conhecido como osso trabecular, localizado na região do tornozelo. Essa estrutura, composta por pequenas hastes e lâminas, desempenha papel fundamental na adaptação do corpo às forças aplicadas durante a caminhada e outras atividades, além de ser uma peça-chave para estudos evolutivos sobre a marcha humana.
A investigação reforça a importância do osso trabecular na compreensão da evolução da locomoção dos nossos ancestrais. Para arqueólogos, essa estrutura rígida, por sua capacidade de remodelação ao longo da vida, oferece pistas valiosas sobre os padrões de uso dos pés e pernas de indivíduos antigos. Como explicou Zewdie Tsegai, da Universidade de Chicago, à revista New Scientist, as mudanças observadas nos ossos dos fósseis ajudam a entender como os humanos antigos utilizavam seus membros inferiores, contribuindo para estudos evolutivos e comparativos com populações modernas.
A trajetória evolutiva dos hominídeos, que remonta a pelo menos 4,2 milhões de anos, revela que os primeiros ancestrais humanos apresentavam estilos de caminhada, posições dos pés e níveis de atividade de escalada bastante distintos dos atuais. Ainda que pareça uma questão simples, comparar essas espécies antigas com os humanos contemporâneos é complexo, sobretudo devido às influências da tecnologia e do uso de calçados na estrutura física moderna. Para avaliar esses efeitos, pesquisadores como Tsegai e Hannah Farrell, da Universidade do Norte do Texas, decidiram investigar como o uso de sapatos poderia distorcer as comparações anatômicas entre diferentes grupos.
A equipe utilizou tomografias computadorizadas para criar mapas tridimensionais do osso do tálus, o osso do tornozelo que conecta a perna ao pé, analisando uma amostra de 56 indivíduos de diferentes épocas e estilos de vida. O grupo incluiu adultos norte-americanos que faleceram a partir dos anos 2000, a maioria usando calçados na maior parte da vida, além de 13 habitantes das Ilhas Andaman, dois africanos do sul e um de origem Aka, na África Central, que nunca usaram calçados.
Os resultados demonstraram diferenças marcantes na estrutura do osso trabecular entre os grupos. Os indivíduos que não usavam calçados apresentaram maior quantidade de osso na porção frontal do tornozelo, região associada a movimentos de flexão do pé, como ao agachar ou escalar. Farrell destacou que as trabéculas desses indivíduos também apresentavam maior variedade de orientações, indicando que seus tornozelos eram submetidos a forças provenientes de múltiplos ângulos. Em contrapartida, os usuários frequentes de calçados exibiram um volume maior de osso trabecular, concentrado principalmente na parte interna e superior do osso, além de estruturas mais orientadas de forma mais uniforme. Essa orientação mais homogênea sugere que o uso de calçados, especialmente com salto, restringe o movimento natural do tornozelo, canalizando as forças aplicadas por meio de trajetórias mais específicas.
Os cientistas interpretam esses dados como um reflexo do impacto do calçado na biomecânica do pé e do tornozelo. O uso contínuo de sapatos, segundo o estudo, desloca a carga para a parte interna do tornozelo e mantém o pé em uma posição mais estendida, o que pode levar a alterações fisiológicas na estrutura óssea ao longo do tempo. Contudo, os autores ressaltam que é necessário aprofundar as pesquisas para distinguir se essas mudanças são uma consequência direta do uso de calçados ou se também estão relacionadas a fatores como o tamanho do corpo e os estilos de vida dos indivíduos estudados.
A pesquisa reforça a importância de compreender como os hábitos modernos, como o uso de calçados, influenciam a anatomia e a biomecânica do corpo humano, além de oferecer insights valiosos para estudos evolutivos e de saúde ortopédica.









