Uma fotografia publicada no Instagram levou à descoberta de uma espécie inédita de vitória-régia gigante na região de Inírida, na Colômbia. A planta, nomeada Victoria colombiana, foi identificada após uma expedição realizada por pesquisadores ao longo de 2022 e publicada em um estudo na revista científica Phytotaxa. A descoberta representa um avanço importante na botânica amazônica, mas também evidencia o risco de extinção da espécie, que possui uma população estimada entre 30 e 50 exemplares na natureza, podendo já estar criticamente ameaçada.
A investigação teve início em 13 de dezembro de 2021, quando Jeremiah Harris, um naturalista estadunidense proprietário de um viveiro de plantas carnívoras nos Estados Unidos, compartilhou uma foto na rede social mostrando-se nadando na Bacia do Orinoco ao lado de uma vitória-régia de tamanho excepcional. Harris acreditava tratar-se de uma Victoria amazonica, espécie bem conhecida, porém a imagem chamou a atenção de Carlos Magdalena, botânico e horticultor dos Jardins Botânicos Reais de Kew, no Reino Unido. Como a Victoria amazonica não é considerada nativa das proximidades do Rio Inírida, Magdalena suspeitou que a planta pudesse pertencer a uma espécie ainda não reconhecida pela ciência.
Para confirmar sua hipótese, Magdalena analisou imagens de satélite e identificou plantas do gênero Victoria na região, além de confirmar com Harris que os registros fotográficos correspondiam às plantas observadas. Posteriormente, ele buscou a colaboração de Mauricio Bernal-Rodriguez, do Jardim Botânico de Bogotá, e de membros de comunidades indígenas locais. Uma expedição de cinco dias foi organizada para estudar as plantas em seu habitat natural, mas os resultados iniciais foram inconclusivos, pois os pesquisadores encontraram apenas duas vitórias-régias sem flores.
A presença de flores era fundamental para a identificação definitiva da nova espécie. Assim, os cientistas aguardaram o momento adequado para coletar uma amostra com estruturas reprodutivas. Na última noite da expedição, com a equipe já se preparando para retornar, o barqueiro Gustavo Melo auxiliou na localização de um grupo de plantas aquáticas, entre elas uma exemplar com flores abertas. Essa descoberta possibilitou a confirmação da Victoria colombiana e a descrição de um total de sete plantas em dois lagos da região.
O estudo também propõe uma revisão na classificação de outra espécie, a Victoria mattogrossensis, sugerindo que ela seja reconhecida como uma espécie distinta. Com essa alteração, o gênero Victoria passaria a contar com cinco espécies atualmente reconhecidas. A combinação de conhecimentos tradicionais indígenas, recursos tecnológicos como imagens de satélite e plataformas digitais, além do trabalho de botânicos e horticultores, foi fundamental para o sucesso da pesquisa.
Segundo Magdalena, a colaboração de diferentes saberes foi essencial para o avanço na descoberta, destacando o papel das tecnologias acessíveis ao público, como o uso de redes sociais e aplicativos de geolocalização. Ele enfatiza que ferramentas digitais, muitas delas já disponíveis no cotidiano de qualquer pessoa, tiveram um papel importante no processo de identificação.
Apesar do avanço científico, a situação da Victoria colombiana é preocupante. Os pesquisadores estimam que a espécie possa estar na categoria de criticamente ameaçada de extinção, o que exige ações de conservação. Uma avaliação formal será apresentada à União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), que monitora o risco de extinção de espécies ao redor do mundo. Ainda há a possibilidade de existirem outras populações em áreas ainda não exploradas, o que reforça a necessidade de estudos adicionais.
Para garantir a preservação da espécie, a equipe planeja cultivar sementes em jardins botânicos, incluindo o Jardim Botânico Bernal-Rodriguez, em Bogotá, e avaliar a possibilidade de estabelecer uma população em lagos próximos às comunidades indígenas locais. Essas ações visam ampliar o conhecimento sobre a planta, além de criar alternativas de conservação. A transferência de exemplares para os Jardins Reais de Kew também está nos planos futuros, contribuindo para o estudo e proteção da Victoria colombiana.
Magdalena finaliza destacando a importância da colaboração e do uso de tecnologias acessíveis na conservação da biodiversidade, ressaltando que a descoberta demonstra como diferentes conhecimentos podem se unir para proteger espécies ameaçadas. Ele espera que essa descoberta seja tão fascinante para o público quanto foi para os pesquisadores, reforçando a relevância de ações conjuntas na preservação do patrimônio natural.








