Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Saúde e Ciência do Oregon (OHSU), nos Estados Unidos, revelou uma associação entre o hábito de comer próximo ao horário de dormir e um aumento no risco de desenvolver doenças no fígado, como a esteatose hepática e a cirrose. A pesquisa, publicada na revista Clinical Gastroenterology and Hepatology nesta sexta-feira, dia 9, analisou dados de aproximadamente 200 mil indivíduos, reforçando a importância do ritmo circadiano — o relógio biológico que regula diversas funções do organismo ao longo do dia — para a saúde hepática.
Anteriormente, estudos já haviam sugerido que o consumo de alimentos durante a noite estaria relacionado a problemas como obesidade e doenças cardiovasculares. No entanto, esta pesquisa buscou investigar especificamente se o horário das refeições poderia influenciar o desenvolvimento de doenças hepáticas. Segundo o principal autor do estudo, o hepatologista Robert Wilechansky, essa é uma das primeiras análises de longo prazo a estabelecer uma ligação direta entre o consumo de alimentos à noite e a doença hepática gordurosa.
Para realizar a investigação, os pesquisadores utilizaram informações provenientes de três grandes estudos realizados nos Estados Unidos: Nurses’ Health Study, Nurses’ Health Study II e Health Professionals Follow-up Study. A partir desses dados, coletados por meio de relatos de alimentação e hábitos de vida de quase 200 mil participantes, os cientistas categorizaram os indivíduos de acordo com seus comportamentos alimentares, especialmente o consumo de alimentos após o jantar ou após o horário habitual de dormir. Essa prática foi considerada como o hábito de comer tarde da noite.
Os resultados indicaram que as pessoas que relataram esse comportamento apresentaram um risco de desenvolver doenças hepáticas entre 20% e 30% maior em comparação àquelas que não mantinham esse hábito. Apesar da associação, os autores reforçam que o estudo é de natureza observacional e baseado em dados autorrelatados, o que impede afirmar que o consumo de alimentos tarde da noite seja a causa direta dessas doenças. Wilechansky destacou que, entre os indivíduos com doença hepática gordurosa, apenas uma pequena parcela evolui para formas mais graves, como a cirrose hepática.
A explicação para essa relação está relacionada ao funcionamento do ritmo circadiano, que sincroniza processos biológicos com os ciclos de dia e noite. O fígado, em particular, é altamente sensível a esse relógio interno. Mudanças no horário das refeições podem afetar seu funcionamento, mesmo sem alterações na composição dos alimentos consumidos. Segundo Wilechansky, o fígado está em sintonia com os ritmos circadianos do corpo, o que reforça a importância de ajustar os horários das refeições de modo a promover a saúde, sem necessariamente alterar o que se come.
Essa conexão também ajuda a entender por que trabalhadores noturnos, que frequentemente enfrentam um desalinhamento entre seu relógio biológico e suas atividades diárias, apresentam taxas elevadas de obesidade e problemas cardiovasculares. Andrew McHill, coautor do estudo e especialista em sono e ritmos circadianos, reforça que o momento em que realizamos atividades cotidianas pode ser tão relevante quanto os próprios hábitos alimentares. Pesquisas anteriores conduzidas por sua equipe demonstraram que comer durante o período em que o organismo se prepara para dormir reduz a eficiência do metabolismo, contribuindo para o desenvolvimento de problemas metabólicos. Estudos com animais também indicaram que o fígado é um dos órgãos mais suscetíveis ao desalinhamento entre horários de alimentação e sono.
Embora os resultados sugiram que evitar refeições próximas ao horário de dormir possa beneficiar a saúde do fígado, ainda são necessárias investigações que confirmem essa hipótese. A OHSU está recrutando participantes para um novo estudo clínico, que acompanhará de forma mais precisa os horários de alimentação e avaliará se antecipar as refeições pode melhorar indicadores relacionados à esteatose hepática. Diferentemente da análise anterior, que utilizou dados autorrelatados, essa nova pesquisa permitirá o monitoramento direto dos hábitos alimentares dos participantes.
Por ora, os pesquisadores destacam que as evidências reforçam a importância de não apenas o que se come, mas também quando se come. “Limitar a ingestão de calorias a algumas horas antes de dormir pode ser uma estratégia benéfica para a saúde hepática”, concluiu Wilechansky.








