Neste sábado (10), a Usina Henry Borden, localizada em Cubatão, São Paulo, celebra um século de operação, uma trajetória marcada por avanços tecnológicos, momentos históricos e sua relevância para o abastecimento energético da região. Inaugurada em 10 de outubro de 1926, a instalação aproveita um desnível de aproximadamente 720 metros na Serra do Mar para gerar energia elétrica, utilizando um complexo que inclui duas casas de força — uma externa e outra subterrânea — e um total de 14 unidades geradoras, capazes de produzir 889 megawatts (MW) de potência instalada. Segundo dados da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae), concessionária responsável pelo complexo desde 1998, essa capacidade é suficiente para atender aproximadamente 4,2 milhões de residências.
A história da usina está intrinsecamente ligada ao desenvolvimento energético e industrial da região da Baixada Santista e da cidade de São Paulo. Sua construção foi resultado do projeto da empresa canadense Light, fundada em 1899, que buscava fornecer energia elétrica à capital paulista. Após uma forte seca em 1924, a Light desenvolveu o chamado “Projeto da Serra”, que incluía a construção do reservatório Rio das Pedras, posteriormente integrado à represa Billings, batizada em homenagem ao engenheiro Asa White Kenney Billings, responsável pelo sistema de desvio das águas do planalto paulista para a geração hidrelétrica em Cubatão. A usina inicialmente recebeu o nome de Cubatão, mas passou a ser conhecida oficialmente como Usina Henry Borden em 1964, em homenagem ao executivo canadense que liderou o grupo Light entre 1946 e 1965.
Durante a Revolução Constitucionalista de 1932, a usina foi alvo de bombardeios aéreos ordenados pelo governo de Getúlio Vargas. Em 28 de julho daquele ano, dois hidroaviões Savoia-Marchetti lançaram bombas contra o complexo, com o objetivo de interromper o fornecimento de energia e prejudicar a atividade industrial de São Paulo. Segundo Fernando Luis Fernandes, diretor de operações da Emae, apenas uma bomba atingiu a instalação, causando danos na casa de máquinas, perfurando o teto e ferindo levemente alguns funcionários, mas sem interromper as operações.
A infraestrutura da usina inclui túneis que conduzem a água do reservatório Billings até o complexo, passando por adutoras que atravessam a Serra do Mar. Apesar de a água trafegar a uma velocidade de aproximadamente 20 km/h nas tubulações, ao se aproximar das turbinas ela atinge cerca de 400 km/h, velocidade superior à média de 300 km/h de um carro de Fórmula 1, demonstrando a eficiência do sistema de condução.
Para facilitar a manutenção na região íngreme da Serra do Mar, a usina dispõe de um sistema de trolley que percorre o trecho de cerca de 720 metros de desnível, com inclinações de até 45 graus. Essa estrutura, que não é acessível ao público, proporciona uma descida de aproximadamente 15 minutos, oferecendo uma experiência única aos operadores.
A usina possui uma combinação de equipamentos históricos e modernos. A primeira unidade da seção externa, inaugurada em 1926, ainda funciona com o rotor original, enquanto o painel de controle da seção subterrânea, que começou a operar em 1956, foi atualizado para um sistema digital remoto, preservando elementos históricos. A cavidade subterrânea, escavada na rocha, mede cerca de 120 metros de comprimento, 21 metros de largura e 39 metros de altura, abrigando seis grupos geradores com capacidade instalada de 420 MW.
Desde 1992, a operação da usina passou a atuar como um suporte ao Sistema Interligado Nacional (SIN), devido às restrições ambientais que limitam o bombeamento de água do Rio Pinheiros para o Reservatório Billings. Atualmente, ela funciona como uma reserva de energia, podendo ser acionada em aproximadamente 15 minutos, em caso de necessidade, contribuindo para a estabilidade do sistema elétrico brasileiro. Em junho, a usina atingiu sua melhor marca de disponibilidade histórica, com uma média móvel de 92% nos últimos cinco anos, resultado atribuído às melhorias na manutenção e na operação, incluindo obras de modernização na seção subterrânea e na unidade externa, previstas para 2027.
Outro aspecto relevante é a capacidade de autoarranque da usina, classificada como “black start”. Essa característica permite que, em um eventual apagão geral, a usina Henry Borden seja uma das primeiras a restabelecer sua operação de forma autônoma, sem depender de fontes externas, garantindo maior resiliência ao sistema elétrico nacional.
Por fim, a presença de fauna no entorno da usina é um fato curioso e simbólico. Funcionários já avistaram uma onça-parda, apelidada de “onça cotoco” devido à ponta da cauda amputada, além de cobras e capivaras, incluindo filhotes, que circulam na Mata Atlântica ao redor do complexo, reforçando a importância da preservação ambiental mesmo em áreas de grande atividade industrial.









