Na manhã deste sábado (10), um sofisticado esquema de roubo resultou na subtração de aproximadamente 30 mil garrafas de vinhos de alta gama de uma das vinícolas mais renomadas da Itália, a Marchesi Antinori, localizada em Cortona, na região da Toscana. O prejuízo estimado chega a R$ 45 milhões, configurando-se como o maior furto individual de vinhos já registrado globalmente. O crime ocorreu durante uma operação que durou cerca de três horas, sem que os alarmes fossem acionados, mesmo após a desativação prévia dos sistemas de segurança na noite anterior, segundo informações da própria empresa.
Segundo Lorenzo Vivoli, representante do departamento de comunicação da Antinori, os criminosos tiveram acesso ao depósito de forma planejada e já sabiam exatamente o que buscar, o que demonstra um grau de organização e conhecimento avançado sobre a operação da vinícola. Os assaltantes chegaram ao local utilizando dois caminhões, com as garrafas, prontas para transporte, devidamente embaladas e aguardando envio às distribuidoras internacionais da marca. Os vinhos roubados incluem os rótulos Tignanello, Solaia e Guado al Tasso, todos da safra de 2023.
O valor do lote roubado, considerando as cotações médias no mercado norte-americano, chega a aproximadamente US$ 8,2 milhões (cerca de R$ 45 milhões), com cada garrafa de Solaia avaliada em torno de US$ 430, Tignanello por US$ 200 e Guado al Tasso por US$ 190. No mercado europeu, a Antinori estima o prejuízo em cerca de € 5 milhões (aproximadamente R$ 32 milhões). Esses números reforçam a gravidade do episódio, que é considerado o maior roubo individual de bebidas alcoólicas da história, superando registros anteriores na Itália e nos Estados Unidos.
O episódio evidencia a vulnerabilidade de uma das maiores produtoras de vinhos do mundo, especialmente considerando que as marcas visadas há anos enfrentam tentativas de falsificação. Em 2019, por exemplo, as autoridades italianas prenderam três indivíduos envolvidos na venda de 11 mil garrafas adulteradas de Tignanello, que continham bebidas de qualidade inferior, mas exibiam rótulos falsificados com erros ortográficos, como a troca do termo “altitudine” por “altidudine”. Além disso, há registros de uma organização criminosa que negociou mais de 54 mil garrafas falsificadas, usando o nome de grandes produtores italianos, incluindo a Antinori, entre 2016 e 2018.
Para combater a pirataria, a vinícola adotou medidas de segurança, como a implementação de elementos de identificação nas garrafas desde 2013, incluindo um logotipo em relevo, o nome Tignanello em alto-relevo e um lacre especial desde 2016. Ainda assim, Vivoli afirma que essas tecnologias não auxiliam na localização das garrafas roubadas, uma vez que o volume elevado de produtos dificultaria sua movimentação ilícita sem deixar rastros evidentes. A empresa também está alertando seus distribuidores e clientes em 170 países sobre possíveis ofertas ilegais, especialmente nos Estados Unidos, principal mercado externo da marca, que já vinha enfrentando dificuldades devido às barreiras tarifárias, com uma queda de 17% no faturamento de exportações no último ano.
As autoridades italianas continuam investigando o caso, mas até o momento nenhum suspeito foi detido. Os sistemas de monitoramento interno da Antinori possuem gravações que podem auxiliar nas apurações, embora as imagens estejam sob sigilo enquanto as investigações prosseguem. A seguradora da vinícola não cobre prejuízos dessa magnitude, agravando ainda mais o impacto financeiro do roubo.
O episódio ocorre em um momento de retração na demanda por vinhos de luxo entre consumidores mais jovens, o que torna a comercialização de produtos roubados ainda mais complexa. Além dos riscos de mercado, o roubo também traz implicações legais, pois a compra de bens roubados é crime na Itália. A complexidade na revenda de bebidas de alto valor, como as roubadas, é reforçada pelo fato de que colecionadores e compradores exigem garantias de armazenamento e autenticidade, dificultando a venda ilícita.
Para a Antinori, o dano emocional causado por esse golpe é especialmente significativo, uma vez que muitas das famílias envolvidas na vinícola atuam na empresa há várias gerações. O roubo representa um golpe no coração de uma das mais tradicionais e respeitadas casas produtoras de vinho na Itália, evidenciando a vulnerabilidade do setor frente a organizações criminosas cada vez mais bem estruturadas.








