O Senado Federal entra nesta semana na fase final de discussão sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que propõe o fim da escala 6×1, uma pauta que tem gerado intensos debates e que pode ser votada antes do segundo turno das eleições presidenciais. A movimentação ocorre em um momento de aproximação do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), com o Palácio do Planalto, após um período de disputas e tensões com o governo Lula. O presidente da Casa sinalizou favoravelmente à votação da proposta, considerada prioritária para o governo, e indicou que as sessões de discussão ocorrerão na terça-feira (13/10) e na quarta-feira (14/10), em formato semipresencial, com a expectativa de realizar uma votação em calendário especial ainda nesta semana, a 11 dias do segundo turno eleitoral.
A mudança de postura de Alcolumbre reflete uma tentativa de alinhar-se ao governo Lula, após um período de resistência e de disputa de forças com o presidente, além de uma crescente aproximação do Palácio do Planalto. Essa movimentação também ocorre em meio a um cenário de instabilidade com a oposição, que tenta resistir à tramitação da PEC dentro dos prazos regimentais. Apesar de não ter cedido às pressões para avançar com o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal, especialmente Alexandre de Moraes, Alcolumbre mantém uma postura de cautela, sobretudo diante do Caso Master, que envolve investigações e ações judiciais de grande repercussão.
O governo buscava votar a redução da jornada de trabalho dos trabalhadores que atuam na escala 6×1 antes do primeiro turno, mas Alcolumbre decidiu adiar a votação, alegando a necessidade de evitar “contaminações” nas campanhas eleitorais. Após o pleito, o presidente do Senado afirmou que daria andamento à proposta, ressaltando a importância do livre arbítrio dos senadores na votação. No entanto, o calendário interno do regimento exige cinco sessões de discussão, dois turnos de votação com intervalo de cinco dias úteis e três sessões plenárias entre uma e outra, o que torna difícil concluir a tramitação antes de 25 de outubro, data prevista para o segundo turno.
Para contornar essa limitação, Alcolumbre já sinalizou que colocará em votação um requerimento de calendário especial, caso seja protocolado pelo governo. A líder do PT no Senado, Teresa Leitão (PE), trabalha para apresentar o documento nos próximos dias, buscando viabilizar a votação antes do pleito. A oposição, por sua vez, liderada por senadores ligados ao setor produtivo e por figuras como Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra de Jair Bolsonaro, defende o cumprimento dos prazos regimentais e a postergação da votação para após as eleições, sob o argumento de evitar decisões apressadas em período eleitoral.
A estratégia do governo também enfrenta resistência dentro do próprio Senado, onde há uma preocupação de que a votação da PEC possa gerar desgaste político antes do segundo turno. Ainda assim, a campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) já teria sinalizado a líderes da oposição para que se abstenham de votar a proposta neste momento, visando evitar repercussões negativas. Alcolumbre, por sua vez, declarou que já recebeu requerimentos com menos assinaturas do que o necessário para questionar a tramitação e que, portanto, a votação pode ocorrer, mesmo que haja questionamentos.
A aproximação entre o Palácio do Planalto e Alcolumbre ocorre em um momento de consolidação do bolsonarismo no Senado. O partido de Flávio Bolsonaro, o PL, conquistou 19 senadores no último domingo, totalizando 28 cadeiras na Casa, a maior bancada. Com esse cenário, o partido espera consolidar uma candidatura própria à presidência do Senado em 2027, quando haverá eleições internas para o comando da Casa. Alcolumbre, que deve tentar a reeleição, já enfrenta o descontentamento do PL, que não deve apoiá-lo, além de tensões internas na sua base, agravadas pela crise no Supremo Tribunal Federal e a relação com o governo.
Além da reeleição, Tereza Cristina, que chegou a ser cotada para vice de Flávio Bolsonaro, também manifestou interesse em disputar a presidência do Senado, reforçando sua intenção de ocupar o cargo. Essa disputa interna indica um cenário de maior fragmentação e fortalecimento de candidaturas alternativas, o que pode influenciar a composição do próximo comando da Casa. A eleição para a presidência do Senado está marcada para o início de 2027, e o resultado deverá impactar significativamente a atuação do Legislativo, especialmente em relação às indicações de autoridade, incluindo futuras nomeações ao Supremo Tribunal Federal e para as agências reguladoras.
Se Lula for reeleito, o cenário para o Senado em 2027 tende a ser mais adverso às pautas do governo, diferentemente dos últimos anos, em que a Casa tem apoiado várias iniciativas presidenciais. A composição atual, com maior força do bloco aliado ao ex-presidente Bolsonaro, reforça o potencial de uma atuação mais desafiadora às propostas governistas, especialmente na definição de indicações estratégicas e na condução de agendas legislativas de interesse do Executivo.








