A atriz Claudia Raia revelou, pela primeira vez, um episódio marcante de sua adolescência envolvendo sua prisão na Argentina, ocorrido durante a Guerra das Malvinas em 1982. Aos 59 anos, ela contou que, na ocasião, foi detida junto com um grupo de dezenove amigos gays por policiais argentinos em um momento de forte repressão contra pessoas LGBTQIA+ no país, em um contexto de ditadura militar e clima de violência institucionalizada.
A informação foi compartilhada durante sua participação no programa Ambulatório da M.O.D.A., apresentado por Gabb, que estreou na noite de quinta-feira, 15 de outubro. Na entrevista, Claudia explicou que, apesar de ter sido liberada no mesmo dia, o episódio deixou marcas e registros pelas autoridades argentinas, que ainda analisam seus documentos quando ela desembarca no país atualmente. A atriz estava na Argentina trabalhando no espetáculo musical “Sexcitante”, ao lado da famosa apresentadora Susana Giménez, na época.
Segundo seu relato, uma das noites em que se encontrava em um restaurante com seus colegas do grupo, policiais entraram no estabelecimento e começaram a abordar os presentes. Ela contou que, na tentativa de evitar problemas, um de seus amigos aconselhou que ela não falasse em espanhol, na esperança de que sua nacionalidade brasileira pudesse protegê-la. Contudo, a divulgação de sua participação na peça, estampada em cartazes de teatro próximos ao local, facilitou sua identificação pelos policiais.
Claudia relembrou que o episódio ocorreu durante um período de repressão intensa na Argentina, quando a ditadura militar controlava o país e as ações policiais eram marcadas por violência e perseguição a grupos considerados suspeitos pelo regime. Ela destacou que, na época, o clima de intolerância era ainda mais agressivo contra a comunidade LGBTQIA+, com veículos escuros utilizados em operações de investigação de antecedentes e buscas por pessoas consideradas suspeitas. Homens identificados como gays pelos policiais, de acordo com seu relato, estavam sujeitos a detenções arbitrárias e agressões físicas.
A atriz destacou que foi presa na Argentina, numa época em que, segundo ela, a existência de pessoas LGBTQIA+ era praticamente proibida pelo regime militar. “Fui presa já na Argentina. Teve um momento, na Guerra das Malvinas, que os gays eram proibidos de existir”, afirmou, demonstrando sua indignação com a violência e a repressão daquele período. Ela questionou a lógica da perseguição, perguntando como alguém poderia ser julgado por simplesmente andar na rua.
Embora tenha sido liberada na mesma noite, Claudia revelou que sua maior preocupação era com o destino de seus amigos, que não tiveram a mesma sorte. Ela afirmou que, diferentemente dela, os dezenove homens permaneciam detidos por mais tempo, sendo que sua libertação só ocorreu após a intervenção de sua mãe, Odette Motta Raia, que estava no apartamento onde as duas estavam hospedadas na ocasião. A atriz também criticou o fato de ter sido presa ainda na adolescência, argumentando que sua idade deveria ter protegido sua integridade diante da ação policial.
Este episódio, que se soma ao seu vasto percurso de vida e carreira, evidencia o ambiente de repressão e intolerância que marcou a história da Argentina na década de 1980, além de reforçar a importância de reconhecer e valorizar a luta pelos direitos LGBTQIA+ e contra a violência institucionalizada.







