Uma startup de biotecnologia está empregando inteligência artificial para avançar no processo de desextinção do dodô (Raphus cucullatus), uma ave que habitava as Ilhas Maurício e foi extinta há vários séculos. A Colossal Biosciences anunciou nesta quarta-feira, 14 de novembro de 2023, o desenvolvimento de uma plataforma chamada GenoMorph, que combina dados genéticos e modelos tridimensionais para auxiliar cientistas na identificação de alterações no DNA que poderiam recriar as características físicas da espécie desaparecida. Essa iniciativa representa uma tentativa de superar obstáculos tradicionais na área de desextinção, especialmente a escassez de material genético disponível para espécies extintas há muito tempo.
A plataforma GenoMorph tem como um de seus principais objetivos o estudo do dodô, cuja amostra de DNA é extremamente limitada, dificultando a comparação com espécies próximas. Segundo Ben Lamm, CEO da Colossal Biosciences, a ausência de múltiplos genomas completos impede uma análise detalhada das diferenças genéticas responsáveis pelas características do animal. Para contornar essa limitação, a tecnologia integra informações morfológicas tridimensionais, genômicas comparativas e conhecimentos sobre o desenvolvimento embrionário, permitindo uma análise mais precisa das regiões do DNA que influenciam o formato e a estrutura do animal.
O processo de reconstrução do dodô envolve a análise de espécies evolutivamente próximas, como galinhas, codornas, patos e pombos, além de dados genéticos e medidas tridimensionais de crânios de mais de 70 espécies de aves. O desenvolvimento da GenoMorph levou mais de um ano e se beneficiou de pesquisas anteriores da própria empresa na área de desextinção. A plataforma ajuda a selecionar os alvos de edição genética mais relevantes, reduzindo o número de alterações a serem testadas em laboratório, mesmo considerando que há apenas um genoma de dodô disponível para pesquisa.
Até o momento, a Colossal Biosciences identificou cerca de 2.300 regiões genéticas promissoras relacionadas à morfologia craniana e facial do dodô, que deverão passar por testes laboratoriais para verificar sua influência nas características físicas da ave. É importante destacar que a aparência de um animal resulta da interação de múltiplos genes e processos complexos de desenvolvimento, o que torna a tarefa de recriar uma espécie extinta ainda mais desafiadora.
Além da GenoMorph, a startup também anunciou o uso de nanopartículas lipídicas — estruturas microscópicas de gordura — para transportar ferramentas de edição genética até embriões de aves em desenvolvimento. Essa estratégia visa acelerar a avaliação dos efeitos das modificações genéticas, permitindo observar, em tempo real, como alterações específicas afetam o desenvolvimento embrionário, sem a necessidade de esperar a maturidade dos animais. No entanto, a segurança dessas intervenções continua sendo uma prioridade, e a validação das modificações ainda exige rigorosos testes de laboratório.
A iniciativa da Colossal Biosciences também inclui avanços no estudo do pombo-de-nicobar (Caloenas nicorabica), considerado o parente vivo mais próximo do dodô. A empresa informou que sua colônia de 36 pombos conseguiu produzir células precursoras capazes de se transformar em óvulos e espermatozoides, uma etapa importante para futuras tentativas de reprodução assistida. Contudo, essa estratégia não implica na transformação direta dos pombos em dodôs nem na garantia de que uma ave com a aparência da espécie extinta será efetivamente recriada.
A tentativa de desextinção do dodô faz parte de um esforço mais amplo da empresa, que no ano passado anunciou a “recriação” do lobo terrível por meio de edição genética. Posteriormente, a própria cientista-chefe da Colossal, Beth Shapiro, admitiu que os animais produzidos na iniciativa não são exatamente iguais às espécies originais, sendo, na verdade, lobos-cinzentos com várias edições genéticas. Ela destacou que o termo “desextinção” é coloquial, e que o processo real envolve modificações genéticas em espécies existentes, o que reforça os limites atuais da tecnologia nesta área.







