A crescente utilização de ferramentas de inteligência artificial (IA) no âmbito educacional tem gerado debates sobre suas vantagens e limitações. Recursos como o ChatGPT, capazes de resolver questões, resumir textos e até produzir trabalhos inteiros em poucos segundos, oferecem potencial para auxiliar estudantes, mas também levantam preocupações quanto ao impacto no processo de aprendizagem. Pesquisas recentes indicam que, embora a IA possa estimular motivação, pensamento crítico e criatividade, o uso excessivo dessas tecnologias pode comprometer a compreensão e o desenvolvimento de habilidades essenciais, especialmente quando há dependência excessiva.
De acordo com o estudo publicado em 12 de agosto na revista científica Education Sciences, o especialista em ciência da aprendizagem Luke Rowe destaca que o uso estratégico da IA é fundamental. Segundo ele, o segredo está em saber quando recorrer às ferramentas tecnológicas e, principalmente, quando evitá-las. Apesar dos benefícios apontados por diversas pesquisas — como a personalização do aprendizado, feedbacks rápidos e estímulo ao raciocínio — há dúvidas quanto à confiabilidade de alguns desses estudos, devido à qualidade metodológica e à falta de transparência em certos trabalhos.
Um dos principais riscos associados ao uso da IA na educação é a chamada terceirização cognitiva, fenômeno em que estudantes passam a depender da tecnologia para realizar tarefas que exigiriam esforço mental próprio. Essa dependência pode levar ao abandono de estudos antes de dominar completamente determinado conteúdo, criando uma falsa sensação de preparação. Como consequência, os alunos podem acreditar que estão prontos para avaliações, mesmo sem o conhecimento sólido necessário.
Em relação aos momentos em que a IA deve ser evitada, Rowe destaca que sua utilização durante simulados e testes preparatórios é especialmente prejudicial. Para uma avaliação autêntica do aprendizado, é importante que o estudante reproduza as condições do exame, sem auxílio de dispositivos eletrônicos ou recursos digitais, estabelecendo limites de tempo e evitando o uso de ferramentas como o ChatGPT. O uso da IA nessas ocasiões pode gerar uma falsa sensação de segurança, que desaparece na hora de demonstrar conhecimentos de forma autônoma.
Um estudo realizado na China, divulgado em junho e citado por Rowe em artigo para o site The Conversation, ilustra esse ponto. A pesquisa revelou que o uso de IA melhorou as notas dos estudantes do ensino médio em tarefas de casa, mas também esteve associado a uma redução de aproximadamente 20% nas pontuações dos exames mensais ao longo de seis meses. Esses resultados evidenciam que obter uma boa nota com o auxílio da tecnologia não garante a compreensão efetiva do conteúdo.
Apesar dos riscos, especialistas recomendam que os estudantes não abandonem o uso da tecnologia, mas adotem uma abordagem mais consciente. Segundo Rowe, o ideal é que o estudante tente aprender e resolver problemas de forma independente antes de recorrer à IA. Essa prática inclui leitura, explicação de conceitos, elaboração de resumos e resolução de questões por conta própria. Após verificar sua compreensão, o estudante pode usar a tecnologia como suporte, por exemplo, solicitando que a IA organize anotações, identifique informações faltantes ou gere questões semelhantes às de uma prova, com diferentes níveis de dificuldade.
Além disso, a IA pode ser útil na avaliação de redações e respostas discursivas, ajudando a identificar pontos positivos, erros, informações ausentes e áreas que necessitam de aprimoramento. Outra estratégia recomendada é explorar contra-argumentos e explicações alternativas, ampliando a reflexão sobre o conteúdo estudado. Mesmo fora dos períodos de avaliação, Rowe sugere reservar momentos de estudo sem dispositivos eletrônicos, a fim de estimular a autonomia e evitar distrações provocadas por notificações digitais.
Por fim, o especialista reforça a importância das interações humanas no processo de aprendizagem. Estudar em grupos pequenos, trocar explicações e receber feedback de colegas são práticas que contribuem de forma significativa para o desenvolvimento do conhecimento, aspectos que a inteligência artificial ainda não consegue reproduzir completamente. A orientação é clara: pensar antes de usar a tecnologia, reservando seu uso para momentos específicos ou, em alguns casos, evitando-o completamente, sempre com foco na efetividade do aprendizado.









