Uma pesquisa publicada em 9 de setembro na revista científica Asian Journal of Business Ethics sugere que um dos primeiros exemplos históricos de liderança tóxica e comportamentos associados à psicopatia corporativa ocorreu há cerca de 400 anos, durante os primeiros passos do capitalismo global. O protagonista dessa análise é Jeronimus Cornelisz, um comerciante holandês ligado à Companhia Holandesa das Índias Orientais, que se destacou por uma série de atos de manipulação, assassinato e abuso após o naufrágio do navio Batavia na costa da atual Austrália Ocidental.
A investigação, conduzida pelo pesquisador Clive Boddy, da Universidade Anglia Ruskin, no Reino Unido, utilizou uma estrutura de análise moderna para avaliar o comportamento de Cornelisz com base em relatos históricos. Essa abordagem permitiu identificar características típicas de líderes manipuladores, como o uso do charme para ganhar confiança, a formação de círculos de apoiadores leais, a eliminação de possíveis rivais e a criação de um clima de medo. Segundo o estudo, Cornelisz buscava consolidar seu poder, controlar recursos e eliminar obstáculos à sua autoridade, atitudes que se enquadram na definição de psicopatia corporativa.
A história do episódio começa com o naufrágio do navio Batavia em 1629, que deixou aproximadamente 200 sobreviventes isolados em um arquipélago. Enquanto alguns oficiais partiram em busca de ajuda até Jacarta, outros, incluindo Cornelisz, permaneceram nas ilhas. Cornelisz, que era subcomerciante na companhia, rapidamente assumiu uma posição de liderança, substituindo membros do conselho de sobreviventes por indivíduos que lhe eram leais. Ele passou a exigir juramentos de fidelidade e a isolar aqueles que poderiam questionar suas decisões, consolidando uma autoridade autoritária e manipuladora.
Enquanto Cornelisz exercia seu domínio, outro grupo de sobreviventes, liderado por Wiebbe Hayes, adotou uma postura diferente. Este grupo concentrou seus esforços na busca por recursos naturais, como água doce e alimentos, encontrando dois poços de água potável, ovos de aves marinhas, além de peixes, cangurus e focas em quantidade suficiente para sustentar todos os sobreviventes por um período considerado por relatos históricos como “mil anos”. Essa comparação, embora hiperbólica, evidencia que a organização e a busca por recursos poderiam ter evitado a violência extrema, demonstrando que a cooperação era uma alternativa viável diante das dificuldades.
O estudo destaca que a diferença de estratégias entre Cornelisz e Hayes evidencia o impacto do estilo de liderança em situações de crise. Cornelisz, ao manipular e intimidar, promoveu uma onda de violência que resultou na morte de cerca de 100 pessoas, incluindo homens, mulheres e crianças, sob a justificativa de conservação de recursos. A violência, na visão do estudo, tinha como objetivo eliminar possíveis ameaças à sua autoridade, reforçando a sua postura de líder psicopata.
Embora o caso de Cornelisz seja considerado o primeiro exemplo documentado de psicopatia corporativa, os autores ressaltam que a análise é retrospectiva e baseada em registros históricos, sem um diagnóstico clínico formal. O termo “psicopatia corporativa” refere-se a padrões de comportamento manipuladores, exploradores e prejudiciais exercidos por indivíduos em posições de poder dentro de organizações. Nesse contexto, a combinação de ambição, manipulação, uso extremo de autoridade e violência por Cornelisz exemplifica uma liderança que se distancia de valores éticos e colaborativos.
A pesquisa também remete ao papel da Companhia Holandesa das Índias Orientais, fundada em 1602, considerada a primeira grande multinacional. Essa organização desempenhou papel central na expansão do comércio holandês e na constituição de um dos primeiros mercados de ações do mundo, em Amsterdã. A análise sugere que, desde o início, indivíduos motivados por riqueza e prestígio podiam exercer influência e conquistar poder dentro de estruturas comerciais complexas, mesmo em situações extremas como a de um naufrágio.
Por fim, o estudo reforça que a presença de lideranças psicopatas ainda é uma preocupação contemporânea. Segundo Boddy, a compreensão do caráter, da ética e dos valores pessoais na seleção de profissionais para cargos de liderança é fundamental para evitar que comportamentos prejudiciais se consolidem em organizações modernas. Assim, o episódio do naufrágio do Batavia serve como um alerta histórico sobre os riscos de líderes que utilizam o poder de forma manipuladora e violenta, destacando a importância de critérios éticos na administração de grupos e empresas.








