Moradores de Conceição da Barra de Minas, na região do Campo das Vertentes, tentam recuperar imagens sacras e outros objetos religiosos furtados da Igreja de Nossa Senhora do Rosário há mais de três décadas. O caso integra um cenário mais amplo: levantamento na plataforma Sondar, banco de dados de bens culturais desaparecidos desenvolvido pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), aponta que o Estado tem mais de 1.600 bens culturais desaparecidos.
Entre os objetos levados da igreja estão três imagens sacras, três coroas, um crucifixo e dois castiçais. O primeiro furto ocorreu na madrugada de 3 de maio de 1984, quando o município ainda era chamado de Cassiterita. Dias antes, dois homens desconhecidos haviam chegado à cidade em uma Brasília branca, com placas de São Paulo, e tentado comprar imagens religiosas pertencentes a igrejas locais. A proposta foi recusada pelo pároco da época.
Cerca de uma década depois, outras quatro esculturas desapareceram do mesmo templo. O segundo ataque ampliou a perda para a comunidade de aproximadamente 3.500 habitantes. O vazio deixado nos altares, segundo moradores, não representa apenas prejuízo financeiro ou histórico, mas também uma ruptura na fé, na devoção e na memória coletiva dos fiéis. A ausência das peças também afeta pessoas que não compartilham da mesma crença, mas mantêm vínculos com a história e a identidade da região.
Relatos de moradores ajudam a reconstruir os furtos
A mobilização para localizar os bens é conduzida, em parte, por moradores que preservaram relatos dos episódios e transmitiram as informações ao longo das gerações. Entre as pessoas que ajudaram a reconstruir os acontecimentos está a antiga zeladora da igreja, além de avós e outros moradores mais velhos.
Foi com base nessas histórias que o servidor público Matheus Teixeira, de 26 anos, passou a investigar o caso. Natural de Conceição da Barra de Minas, ele cresceu próximo à tradição católica e às irmandades religiosas das quais seus familiares participavam. Desde 2017, reúne documentos, fotografias e depoimentos com o objetivo de reconstituir os furtos e tentar descobrir o paradeiro das peças.
O interesse pelo patrimônio local se transformou em preocupação diante da falta de iniciativas para tentar recuperar as obras. “Aquilo me chamava a atenção e me gerava um desconforto porque, até o momento, ninguém nunca tinha tentado fazer uma campanha para que retornassem esses bens”, afirmou Matheus.
O trabalho também revelou detalhes dos ataques. Em 1984, a imagem de Nossa Senhora de Nazaré foi levada sem o Menino Jesus, que permaneceu na igreja. No segundo furto, ocorrido onze anos depois, os Meninos Jesus das três imagens de roca também foram deixados para trás.
“Quando amanheceu, a zeladora, dona Rosária Mazinho, viu os Meninos Jesus no chão do gramado da capela. Foi aí que os moradores perceberam que a igreja tinha sido saqueada mais uma vez”, relatou o servidor.
Peças remanescentes estão expostas em museu
Apesar de investigações e de relatos sobre a recuperação de imagens sacras furtadas em Minas Gerais, nunca houve confirmação de que as peças de Conceição da Barra de Minas estivessem entre os bens apreendidos. Diante da falta de informações sobre o paradeiro das esculturas, a mobilização passou a envolver também a preservação dos objetos que restaram.
Dois Meninos Jesus vinculados às imagens desaparecidas estão expostos no Museu Municipal Tomé Portes del-Rei, em São João del-Rei. As peças continuam pertencendo ao acervo de Conceição da Barra de Minas e foram levadas ao museu para ampliar a visibilidade do caso e manter viva a história do patrimônio retirado da igreja.
Os dois altares laterais do templo, que antes abrigavam as esculturas, permanecem sem as imagens. A substituição dos objetos é dificultada pelo custo elevado das peças sacras e pela limitação financeira de um município de pequeno porte. Sem recursos para recompor o acervo, os fiéis mantêm a esperança de que os itens originais sejam encontrados e devolvidos.
O Ministério Público de Minas Gerais acompanha a campanha dos moradores e apoia a mobilização pelo retorno do patrimônio religioso.
Minas Gerais tem centenas de bens recuperados ou apreendidos
Além dos mais de 1.600 bens desaparecidos, a plataforma Sondar registra 488 itens apreendidos e outros 186 devolvidos aos locais de origem. O sistema reúne informações de diferentes instituições, como o MPMG, a Secretaria de Estado de Cultura, o Arquivo Público Mineiro (APM), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha), o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
De acordo com o Iphan, obras de arte, objetos históricos, livros raros e manuscritos estão entre os bens mais visados por ladrões e quadrilhas, inclusive grupos com atuação internacional. O instituto mantém o Banco de Bens Culturais Procurados (BCP) e trabalha em conjunto com a Polícia Federal, a Interpol e a Receita Federal.
O Iphan esclarece, porém, que as investigações sobre roubos e furtos de bens culturais e as ações diretas de recuperação não estão entre suas atribuições. A instituição atua no monitoramento e na fiscalização do comércio de bens culturais, incluindo a análise de catálogos de leilões, a fiscalização de itens oferecidos em lojas físicas e na internet e eventuais apurações e sanções administrativas contra negociantes.
Quando um bem cultural móvel tombado é furtado ou roubado, ele passa a integrar a Lista de Bens Culturais Procurados, o que permite a identificação e a recuperação do patrimônio para posterior devolução ao local de origem. O instituto recomenda que colecionadores e compradores de objetos antigos consultem regularmente o banco de dados para evitar envolvimento em crimes de receptação de patrimônio cultural brasileiro ou tráfico internacional de obras de arte.
Polícia recuperou peças furtadas em Barbacena, Campo Belo e Cristais
Alguns casos recentes tiveram desfecho positivo. No início deste mês, a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) recuperou o manto e a coroa de uma imagem religiosa furtados de uma igreja em Barbacena. Os suspeitos também foram identificados, e o inquérito continua em andamento.
No último mês de abril, a corporação recuperou diversos bens furtados de igrejas de Campo Belo e Cristais, incluindo imagens e objetos litúrgicos. O inquérito foi concluído com o indiciamento de um homem de 37 anos por furto qualificado.
A PCMG informou que investiga furtos e receptações de objetos litúrgicos e obras de arte sacras pertencentes a instituições religiosas. Em determinados casos, a corporação cruza informações e realiza levantamentos de inteligência com outros órgãos para identificar possíveis grupos especializados nesse tipo de crime.
Informações sobre o comércio ilegal desses itens podem ser encaminhadas anonimamente ao Disque-Denúncia, pelo telefone 181, ou comunicadas em qualquer Delegacia de Polícia.
A reportagem também procurou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para tratar do impacto do furto de obras sacras sobre a fé católica, mas aguardava retorno.








