Durante grandes eventos esportivos, especialmente competições de futebol, é comum ver vídeos de animais que supostamente “preveem” os resultados das partidas. Um dos casos mais emblemáticos foi o do Polvo Paul, que se destacou na Copa do Mundo de 2010 ao acertar todos os resultados da seleção alemã e, eventualmente, o campeão do torneio. No entanto, especialistas em comportamento animal afirmam que esses episódios não têm base científica e não indicam que os animais possuam a capacidade de prever o futuro.
De acordo com os especialistas, as escolhas feitas pelos animais em situações de previsão são influenciadas por diversos fatores ambientais e muitas vezes pelo acaso. O Polvo Paul, que vivia em um aquário na Alemanha, era apresentado a duas caixas transparentes, cada uma contendo um alimento e marcada com a bandeira de uma seleção. A caixa escolhida primeiro era considerada seu palpite para o jogo. Esse método gerou um fenômeno, levando à participação de outros animais, como gatos, focas e até tubarões, em previsões semelhantes.
Rafael Fernando Wisneski, educador canino e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), explica que as demonstrações de “previsão” de resultados têm um caráter recreativo e não seguem os critérios rigorosos de pesquisa científica. Em estudos comportamentais, os pesquisadores controlam uma série de variáveis que podem afetar as decisões dos animais, como a posição das caixas, odores, iluminação e a presença de pessoas durante o teste. Um detalhe que pode parecer trivial, como a ordem em que as caixas são apresentadas, pode influenciar a escolha do animal, já que o cheiro do alimento pode se propagar e tornar uma opção mais atraente.
A médica veterinária Kássia Vieira, professora de Comportamento e Bem-Estar Animal da Universidade Católica de Brasília (UCB), complementa que as decisões dos animais não são aleatórias. Elas são guiadas por estímulos que eles percebem em seu ambiente, como a iluminação, a temperatura, a posição dos recipientes e até a direção do olhar do tratador. Esses fatores podem impactar de maneira significativa a escolha do animal, levando a resultados que não são fruto de uma capacidade preditiva, mas sim de influências externas.
Embora Paul tenha acertado oito resultados durante a Copa de 2010, isso não é suficiente para considerá-lo uma evidência de que animais podem prever eventos futuros. Wisneski ressalta que até o momento não há comprovação científica robusta que sustente essa ideia. Casos como o do Polvo Paul podem ser explicados pela combinação de acaso e influências ambientais não controladas.
A veterinária Kássia Vieira destaca que a probabilidade de um animal acertar oito escolhas binárias consecutivas é de uma em 256. Embora essa sequência pareça improvável, ela pode ocorrer naturalmente, especialmente quando muitos animais são testados simultaneamente. Quando centenas de zoológicos ou milhares de pessoas realizam previsões com seus animais, é esperado que alguns consigam essa sequência perfeita apenas por acaso. São esses casos que acabam se destacando na mídia.
Além da curiosidade gerada por esses episódios, existe uma explicação psicológica para a popularidade das previsões feitas por animais. Wisneski aponta que essas previsões combinam elementos de esporte, entretenimento e o fascínio humano pela inteligência animal. O cérebro humano tende a buscar padrões e atribuir significado a coincidências. Assim, quando um animal acerta várias previsões consecutivas, isso atrai mais atenção do que os inúmeros casos em que os animais erram. Esse fenômeno é conhecido como viés do sobrevivente, onde se lembram dos casos extraordinários, enquanto a grande quantidade de tentativas que não tiveram sucesso é rapidamente esquecida.







