Estruturas enferrujadas das minas Velha e Grande, desativadas pela empresa AngloGold Ashanti, se tornaram o centro de um debate que divide a cidade Nova Lima. Após a aprovação do Plano de Fechamento, a empresa apresentou o projeto “Nova Vila”: um complexo com moradias, centros culturais, ciclovia e áreas verdes em uma área de 260 mil m².
Para o poder público, é a chance de transformar um passivo ambiental em legado urbano. Para parte da população, é motivo de desconfiança.
Moradores do centro e de bairros vizinhos às minas afirmam que não foram consultados no início do projeto e temem que o Nova Vila se torne mais um condomínio de luxo. “Trabalhei 30 anos na mina. Meu pai também. Agora falam que vai ter museu, ciclovia, prédio bonito. Mas pra quem? Porque o aluguel aqui já está nas alturas“, desabafa Dona Maria, 62 anos, moradora há quatro décadas a 500 metros da Mina Velha. “Se vier prédio caro, shopping, a gente vai ter que ir embora. Isso não é legado pra gente, é expulsão.“
Outro questionamento frequente é sobre o patrimônio histórico. As minas têm galpões e estruturas com mais de 100 anos. “Essa mina é a história de Nova Lima. Não pode virar só fachada de prédio. Cadê o museu de verdade? Cadê a memória do trabalhador?”, questiona José, ex-funcionário da AngloGold.
Moradores de Nova Lima cobram soluções atuais
Mobilidade e meio ambiente também estão na pauta. O projeto prevê 25% da área destinada a corredor ecológico e Mata Atlântica, além de uma ciclovia de 2 km. Mas moradores cobram soluções para problemas atuais. “Falam de ciclovia, mas aqui na rua já não passa carro direito no horário de pico. Vai entrar mais mil famílias e quem vai dar conta do trânsito?”, pergunta Rafael, comerciante na região central.
Ambientalistas locais acompanham de perto. “A gente quer ver na prática essa preservação. Já vimos muito discurso de ‘baixo impacto’ e depois o terreno virar concreto. O plano tem que ser fiscalizado metro a metro“, afirma uma integrante de coletivo socioambiental da cidade.
A área das minas Velha e Grande fica a poucos minutos da Praça Tiradentes. Por décadas, foi cercada e sem uso. Agora, o desafio é decidir qual Nova Lima vai nascer ali. Movimentos sociais já pedem audiências públicas específicas sobre o projeto e acesso integral ao Plano de Fechamento de Mina aprovado.
Para os moradores, o sentimento é de expectativa, mas com pé atrás. “A gente não é contra progresso. Só não quer ser esquecido de novo. A mina deu muito pra essa cidade. Agora a cidade tem que cobrar de volta“, resume Dona Maria.
O que a empresa diz sobre o projeto?
Fernando Cláudio, diretor de Comunicação, Comunidades e Relações Governamentais da AngloGold Ashanti, diz que o projeto prioriza a sustentabilidade, a preservação do patrimônio histórico e a criação de uma reserva ecológica de 60 mil m².
“O nosso objetivo é transformar uma área historicamente ligada à mineração, em um espaço totalmente integrado à cidade, gerando novos usos culturais, econômicos, ambientais e urbanos. Importante destacar que o diálogo com a comunidade é a nossa prioridade. Falta hoje a região central da cidade oferta de trabalho para a população, gerando assim a necessidade de deslocamento para Belo Horizonte. Com Nova Vila, esse fluxo de pessoas tende a diminuir“, contou.
Além disso, ele alega que planejamento foi moldado através de escuta ativa da comunidade, com audiências públicas na Câmara Municipal, reuniões e visitas técnicas. Por fim, ele diz que o projeto foi apresentado como um legado de transição econômica e urbana para a região.
“Destaco que ouvimos a população e, com base nessa escuta ativa, a justiça da comunidade. Desde 2021 realizamos audiências públicas, reuniões e visitas técnicas que envolveram mais de 1.500 pessoas, dentre elas os vereadores da cidade. Mais que empreendimento, o Nova Vila é um legado da transição econômica e de sustentabilidade para Nova Lima“, finalizou.









