O período de férias escolares no Brasil traz consigo uma quebra significativa nas rotinas diárias, o que pode impactar negativamente crianças e adolescentes diagnosticados com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). A falta de previsibilidade nas atividades e o aumento do tempo diante das telas podem exacerbar os sintomas dessa condição, dificultando o tratamento e a gestão do dia a dia.
Crianças e adolescentes com TDAH frequentemente enfrentam desafios acentuados na manutenção da atenção, controle da impulsividade, regulação do sono e organização de atividades cotidianas durante as férias. Especialistas alertam que, para mitigar esses sintomas, é crucial manter uma rotina estruturada e não interromper o tratamento medicamentoso, quando este for indicado.
De acordo com o psiquiatra Paulo Mattos, muitos dos sintomas do TDAH se manifestam em contextos que vão além do ambiente escolar. Portanto, é fundamental que o tratamento prescrito pelos profissionais de saúde seja mantido, mesmo durante as férias. “Nos casos em que o impacto do TDAH é notado apenas na escola, pode haver a possibilidade de suspender o uso de psicoestimulantes. No entanto, para medicamentos não estimulantes, como a atomoxetina, a continuidade do tratamento é essencial. Cada caso deve ser avaliado individualmente antes de qualquer alteração”, enfatiza Mattos, que é também pesquisador no Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino em Brasília.
O TDAH é uma condição neurobiológica com causas predominantemente genéticas, afetando indivíduos de todas as idades. Os principais sintomas incluem desatenção, impulsividade e inquietude. Embora a condição seja mais frequentemente diagnosticada em crianças e adolescentes, ela também pode se manifestar na vida adulta. Os sintomas típicos incluem dificuldade em manter a atenção em atividades escolares ou profissionais, perda de objetos essenciais, desinteresse em ouvir, aversão a tarefas que demandam esforço mental, dificuldade em seguir instruções e esquecimentos frequentes nas atividades diárias.
Outros sinais que podem indicar a presença do TDAH incluem agitação das mãos ou pés, fala excessiva, dificuldade em esperar a sua vez, interrupções em conversas e respostas apressadas antes que as perguntas sejam completadas. Além disso, comportamentos como estar constantemente “a mil” e a incapacidade de permanecer sentado em situações que exigem isso também são indicativos do transtorno.
A Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA) aponta que fatores hereditários e alterações na função de neurotransmissores, especialmente a dopamina e a noradrenalina, estão entre as causas do TDAH. Outros fatores que podem influenciar o desenvolvimento do transtorno incluem a exposição a substâncias durante a gravidez, como álcool e drogas, a exposição ao chumbo, complicações durante a gestação e deficiências nutricionais.
Especialistas ressaltam que um diagnóstico precoce do TDAH, aliado a intervenções medicamentosas e psicoterápicas, pode reduzir significativamente os sintomas na vida adulta, permitindo que os indivíduos se tornem mais funcionais. Por outro lado, pessoas diagnosticadas tardiamente frequentemente percebem a condição por meio de dificuldades em se concentrar e manter a atenção em atividades diárias, como estudos e trabalho.
O diagnóstico do TDAH não é simples e pode ser confundido com comportamentos de falta de interesse ou desleixo. Por isso, é fundamental que psicólogos e psiquiatras sejam consultados para uma avaliação precisa. O diagnóstico é clínico e envolve uma entrevista detalhada com o paciente e seus familiares, onde queixas e prejuízos funcionais são analisados para determinar a presença do transtorno.
Durante as férias, a falta de coincidência entre o período de descanso das crianças e a rotina de trabalho dos pais pode gerar sobrecarga, dificultando ainda mais a manutenção de uma rotina estruturada. Nesses casos, é recomendável que os responsáveis tentem organizar, mesmo que de forma remota, horários de alimentação, sono, atividades físicas e de lazer, ajudando a criar um cotidiano mais próximo ao que ocorre durante o período escolar.
“As férias representam uma mudança significativa na rotina, mas não devem ser vistas como uma pausa no TDAH. Com uma boa organização, acompanhamento adequado e adesão ao tratamento quando necessário, é possível enfrentar esse período de forma mais tranquila, minimizando os impactos para a criança, o adolescente e toda a família”, conclui Mattos.









