
O Santos reconheceu oficialmente uma dívida de R$ 90,5 milhões com a NR Sports, empresa ligada à família de Neymar e responsável pela administração dos direitos de imagem do jogador. O débito aparece no quinto aditamento contratual firmado entre as partes em 6 de abril de 2026.
O novo documento mantém o CT Meninos da Vila, utilizado pelas categorias de base do clube, como possível garantia do pagamento. Ao mesmo tempo, modifica o cronograma anteriormente acertado e retira cláusulas relacionadas às eleições presidenciais do Santos e a uma eventual transformação do clube em Sociedade Anônima do Futebol, a SAF.
O contrato foi assinado pelo presidente do Santos, Marcelo Teixeira, pelo vice-presidente Fernando Bonavides e por Altamiro Lopes Bezerra, diretor financeiro da NR Sports. Procurados pelo UOL, Santos e NR Sports não revelaram detalhes adicionais, alegando confidencialidade contratual.
Qual é a origem da dívida com Neymar?
O débito está relacionado principalmente aos direitos de imagem de Neymar, valores pagos separadamente dos salários registrados no contrato esportivo do jogador.
Os direitos de imagem correspondem à utilização comercial do nome, da imagem, da voz e da identidade do atleta em campanhas publicitárias, ações de patrocinadores, conteúdos institucionais e outras iniciativas de marketing.
A obrigação começou a ser acumulada após o retorno de Neymar ao Santos e foi renegociada em dezembro de 2025, quando o atacante renovou seu vínculo com o clube até o final de 2026. Na ocasião, o Santos reconheceu uma dívida total de R$ 90,5 milhões com a NR Sports.
Do total reconhecido, R$ 26 milhões já estavam vencidos, enquanto os outros R$ 64,5 milhões correspondiam a obrigações com vencimentos posteriores.
O acordo firmado em dezembro previa o pagamento dos R$ 26 milhões em cinco parcelas de R$ 5,2 milhões, entre janeiro e maio de 2026. O restante seria quitado em 43 parcelas de R$ 1,5 milhão, corrigidas pela variação do IPCA/FGV, com término previsto para dezembro de 2029.
Esse cronograma, entretanto, não foi cumprido como previsto e precisou ser novamente alterado.
Venda de jogador ajudou a reduzir o débito
O novo aditamento determinou que os 2 milhões de euros que o Santos tinha a receber do Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, pela venda do atacante Luca Meirelles fossem repassados à NR Sports.
O Santos informou que realizou um pagamento de aproximadamente R$ 11 milhões. Considerando a conversão estimada em cerca de R$ 11,6 milhões, o valor total da dívida poderia cair para aproximadamente R$ 79,9 milhões.
Mesmo depois desse repasse, ainda restariam cerca de R$ 14,4 milhões referentes às obrigações que já estavam vencidas, além dos R$ 64,5 milhões que ainda venceriam. Os valores definitivos dependem da cotação utilizada e de outros pagamentos que possam ter sido realizados.
Novo acordo prevê parcelas de R$ 1 milhão
Pelo quinto aditamento contratual, o saldo restante deverá ser pago em parcelas mensais de R$ 1 milhão, a partir de janeiro de 2027.
Excepcionalmente, o novo acordo estabelece que essas parcelas serão pagas sem correção monetária, juros ou multa. O documento obtido pela reportagem, porém, não informa expressamente a quantidade total de parcelas nem estabelece a data definitiva para a quitação.
Na prática, a maior parte da dívida ficará para a próxima administração do Santos, já que o clube realizará eleição presidencial no final de 2026.
CT Meninos da Vila permanece como garantia
O acordo mantém a possibilidade de o CT Meninos da Vila ser utilizado como garantia real do pagamento. Isso pode ocorrer por meio de hipoteca, alienação fiduciária ou outra forma de restrição sobre o imóvel.
A utilização do CT como garantia, no entanto, depende de autorização do Conselho Deliberativo do Santos. Segundo o estatuto do clube, a reunião precisa ter a presença de pelo menos metade dos conselheiros e a aprovação de dois terços dos integrantes presentes.
Até a divulgação do documento, o Santos não havia informado se o Conselho Deliberativo já tinha autorizado formalmente a constituição da garantia.
Portanto, a simples menção ao CT no contrato não significa que Neymar ou a NR Sports já sejam proprietários do imóvel, nem que o centro de treinamento possa ser imediatamente tomado.
O que pode acontecer se o Santos não pagar?
Caso o Santos deixe de cumprir o novo cronograma, a NR Sports poderá cobrar judicialmente a dívida, desde que os documentos apresentem os requisitos necessários para a execução.
A empresa poderá pedir o pagamento do saldo vencido, além de eventuais encargos estabelecidos no contrato para casos de atraso. Dependendo da redação final do acordo, também poderá ocorrer o vencimento antecipado das parcelas restantes, tornando exigível uma parte maior ou até a totalidade do débito.
Outra possível consequência é o bloqueio de valores existentes em contas do clube ou de receitas que o Santos tenha a receber, como premiações, transferências de jogadores, direitos comerciais e outras fontes de renda. A medida dependeria de decisão judicial e da forma utilizada pela NR Sports para cobrar o crédito.
Se a garantia sobre o CT for formalmente aprovada, registrada e considerada válida, a NR Sports poderá buscar a execução do imóvel. Em dívidas garantidas por alienação fiduciária, o credor pode recorrer à execução judicial ou ao procedimento extrajudicial, desde que sejam observadas as condições legais e contratuais.
Isso poderia levar, em última instância, à venda ou ao leilão do CT para o pagamento da dívida. Antes disso, porém, seria necessário cumprir etapas como formalização da garantia, registro do gravame, notificação do clube e abertura do procedimento de cobrança.
Santos pode perder o CT?
Existe risco, mas a perda do CT não é automática.
Primeiro, o Conselho Deliberativo precisa autorizar a constituição da garantia. Depois, o instrumento escolhido — hipoteca, alienação fiduciária ou outra modalidade — deve ser devidamente formalizado e registrado.
Somente diante da inadimplência e do cumprimento dos procedimentos previstos na legislação e no contrato é que o imóvel poderia ser levado a leilão ou transferido no processo de execução.
Também podem surgir questionamentos internos ou judiciais sobre a validade do acordo, a avaliação do imóvel, a autorização estatutária e o cumprimento das regras administrativas do clube.
Atraso não gera punição esportiva automática
Por se tratar, inicialmente, de uma dívida contratual relacionada aos direitos de imagem e à NR Sports, o atraso não significa automaticamente perda de pontos, rebaixamento ou proibição de contratar jogadores.
Essas punições esportivas normalmente dependem de procedimentos específicos da Justiça Desportiva, da CBF ou da Fifa e da natureza da dívida.
O principal risco imediato para o Santos é financeiro e patrimonial: novas ações de cobrança, bloqueio de receitas, aumento da pressão sobre o caixa e eventual execução do CT caso a garantia seja efetivamente formalizada.
Acordo anterior tinha condições mais duras
A renegociação de dezembro de 2025 previa que todo o saldo poderia vencer imediatamente caso Marcelo Teixeira não fosse reeleito presidente ou se o Santos se transformasse em SAF.
Também existia uma multa diária correspondente a 1% do saldo devedor caso o clube, depois de notificado, não formalizasse a garantia sobre o CT ou não apresentasse outro bem.
Essas cláusulas foram retiradas no quinto aditamento firmado em abril. Assim, a troca de presidente ou a transformação do clube em SAF deixaram de provocar automaticamente o vencimento antecipado da dívida. A multa diária pela não formalização da garantia também foi excluída.
Apesar do alívio nessas condições, a situação continua preocupante. As demonstrações financeiras de 2025 apontaram um endividamento líquido de receitas diferidas de aproximadamente R$ 998,5 milhões, além de apenas R$ 295 mil registrados em caixa e equivalentes de caixa no encerramento daquele exercício.
A dívida com Neymar, portanto, representa mais uma obrigação relevante dentro de um cenário financeiro já pressionado. O desafio do Santos será cumprir as parcelas sem comprometer salários, contratações, manutenção do futebol e investimentos nas categorias de base — justamente o setor que utiliza o imóvel colocado como possível garantia.









