Uma equipe internacional de cientistas anunciou a observação inédita de pequenos redemoinhos na superfície visível do Sol, fenômeno que havia sido previsto pela física desde o século XIX. A descoberta, considerada um avanço na compreensão da dinâmica solar, foi divulgada pela Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos (NSF) e pelo Observatório Solar Nacional (NSO). As imagens de alta resolução foram obtidas por meio do Telescópio Solar Daniel K. Inouye, atualmente o mais potente do mundo dedicado ao estudo do Sol.
As observações revelaram, pela primeira vez na história, a presença de estruturas na fotosfera — a camada visível da superfície solar — que evidenciam a ocorrência da instabilidade de Kelvin-Helmholtz (KHI). Este fenômeno ocorre quando duas camadas de um fluido deslizam uma sobre a outra em velocidades diferentes, gerando redemoinhos e ondas ondulatórias. Na Terra, esse processo pode ser visto em ondas formadas pelo vento sobre lagos e oceanos ou em nuvens onduladas. Já no Sistema Solar, a KHI havia sido detectada anteriormente em atmosferas de planetas como Júpiter e Saturno, mas sua manifestação na superfície do Sol nunca havia sido observada com tamanha clareza e detalhamento.
Segundo os pesquisadores, a resolução do Telescópio Daniel K. Inouye foi fundamental para identificar esses pequenos redemoinhos, que possuem dimensões de apenas algumas dezenas de quilômetros. Essas estruturas, visíveis graças às imagens de alta definição, representam um avanço na compreensão da dinâmica da fotosfera solar, uma camada crucial para entender o comportamento do plasma que compõe a estrela.
David Boboltz, diretor-adjunto do Observatório Solar Nacional, destacou a importância da descoberta, afirmando que a identificação da instabilidade de Kelvin-Helmholtz na fotosfera, corroborada por simulações numéricas, constitui um passo significativo na compreensão do movimento do plasma solar e de sua evolução. Os redemoinhos, ao se formarem continuamente na superfície do Sol, podem exercer um papel importante na torção das linhas do campo magnético da estrela, favorecendo o acúmulo de energia magnética. Quando essa energia é liberada, fenômenos como erupções solares, jatos de plasma e ejeções de massa coronal podem ocorrer, influenciando o clima espacial terrestre.
Para validar a descoberta, os cientistas compararam as imagens capturadas pelo telescópio com simulações computacionais que reproduzem o comportamento da atmosfera solar. Ambas as abordagens apresentaram estruturas semelhantes e padrões de formação dos redemoinhos, reforçando a confiabilidade dos resultados. Matthias Rempel, pesquisador sênior do High Altitude Observatory, afirmou que a observação de vórtices de Kelvin-Helmholtz na fotosfera revela um novo regime dinâmico na região, contribuindo para o entendimento das interações entre o plasma e o campo magnético da estrela.
Além de esclarecer aspectos do transporte de energia magnética no Sol, a descoberta pode ajudar a solucionar um antigo mistério da astrofísica: o aquecimento da coroa solar, a camada externa da estrela que atinge temperaturas próximas de 1 milhão de kelvin, muito superiores às da sua superfície. Décadas de estudos tentam entender como esse fenômeno ocorre, e a equipe sugere que a instabilidade de Kelvin-Helmholtz pode ser um dos mecanismos responsáveis pelo aquecimento da coroa.
Thomas Rimmele, diretor de tecnologia do Observatório Solar Nacional, afirmou que essa instabilidade provavelmente contribui para o aumento da temperatura na atmosfera externa do Sol, integrando-se ao conjunto de processos que explicam a elevada temperatura da coroa. A compreensão desse mecanismo é considerada fundamental para desvendar o ciclo magnético solar e aprimorar modelos de previsão da atividade solar ao longo do tempo, o que tem implicações diretas na proteção de satélites, redes elétricas, sistemas de navegação e comunicações na Terra.






