O filme brasileiro “A Margem do Rio” foi um dos destaques do Festival de Locarno, na Suíça, ao receber o Prêmio Especial do Júri na mostra competitiva. Esta foi a primeira exibição da produção, que também foi a única representante do Brasil na competição oficial do evento internacional. A premiação reforça a relevância do cinema do Nordeste e evidencia a força criativa da comunidade LGBTQIA+ na produção audiovisual brasileira.
Dirigido por Matheus Farias e Enock Carvalho, ambos estreantes na direção de longas-metragens, o filme é descrito como um “horror erótico e mágico”. Segundo os próprios cineastas, o reconhecimento internacional de “A Margem do Rio”, ambientado na capital pernambucana, demonstra a potência do cinema nordestino no circuito global e evidencia a presença de criadores LGBTQIA+ na vanguarda do cinema brasileiro. Os diretores ressaltaram ainda a importância de suas identidades e do posicionamento político na narrativa, destacando a relevância da representatividade.
Durante a cerimônia de premiação, Matheus Farias fez uma declaração que reforça a mensagem de resistência e desobediência presente na obra. Ele afirmou que, enquanto pessoas LGBT, vivem em um contexto de profanação e desobediência, e que essa trajetória de luta e resistência é fundamental para que possam existir em espaços públicos. “Se hoje podemos existir em público, em alguns lugares e sob algumas condições, é porque alguém desobedeceu antes de nós e provavelmente pagou um preço por isso. Então seja gay, seja queer, desobedeça, profane. Não acredite que, se você se comportar bem, o sistema vai te aceitar. Não vai. Estamos sempre à margem”, declarou.
A produção conta com atuações de Ítalo Martins, conhecido por trabalhos como “O Agente Secreto” e “Guerreiros do Sol”, e Caique Copque, que participou do premiado filme brasiliense “Mapas”, destaque no 30º Cine PE. Ambos atores destacaram o orgulho de participar de um projeto que evidencia a criatividade e o talento do cinema nordestino, especialmente em um cenário nacional marcado por dificuldades na produção audiovisual.
A narrativa do filme acompanha a história de dois jovens que vivem às margens da sociedade pernambucana, enfrentando uma espiral de violência que ameaça suas vidas. A trama aborda temas como sobrevivência, resistência, sexualidade e marginalidade, inserindo-se na tradição do cinema brasileiro de explorar o horror erótico e o mágico como formas de expressar realidades complexas.
O Festival de Locarno justificou a premiação destacando a energia pulsante do filme, que consegue transmitir a intensidade de uma jornada marcada por paciência, solidariedade, atração, violência, corpos e sexo. Segundo o júri, “A Margem do Rio” representa um trabalho que só um primeiro longa pode oferecer, com uma energia única e uma forte conexão com a tradição política do cinema brasileiro. A distinção no festival suíço reforça o potencial do cinema independente brasileiro, sobretudo do Nordeste, para conquistar reconhecimento internacional e ampliar a diversidade de vozes na produção audiovisual.








