O universo literário de Clarice Lispector, uma das mais influentes escritoras brasileiras do século XX, ganhou uma nova interpretação no cinema por meio do filme “Rio de Clarice”, que estreou na última quinta-feira, 13 de agosto. A produção reúne cinco contos da autora, transformando-os em uma narrativa composta por histórias independentes, dirigidas por diferentes cineastas brasileiras, todas elas mulheres. Além de dirigir, as cineastas também atuam como protagonistas, reforçando o protagonismo feminino na releitura da obra de Lispector.
Um dos principais nomes por trás do projeto é Nicole Allgranti, sobrinha-neta da escritora, que assinou o roteiro do filme e foi responsável pela adaptação de um dos contos. Em entrevista ao portal Metrópoles, ela destacou a importância de reunir diferentes olhares femininos para interpretar a obra de Clarice, ressaltando a singularidade de cada história e a diversidade de perspectivas apresentadas. Segundo ela, cada uma das cinco diretoras trouxe uma abordagem única, enriquecendo a narrativa final.
O conto escolhido por Nicole foi “A Bela e a Fera” ou “A Ferida Grande Demais”, considerado por ela uma peça fundamental na trajetória de Clarice. A escolha se deu por tratar de um dos últimos textos escritos pela autora antes de sua morte, ocorrida em 1977. Nicole destacou a relevância social da história, bem como seu simbolismo, representando um período em que ela convivia de perto com Clarice Lispector. A escritora, conhecida por sua profunda exploração da complexidade humana, especialmente da experiência feminina, é reconhecida por seu domínio da alma do ser humano, o que fica evidente na sua obra introspectiva e repleta de diálogos marcantes.
A produção cinematográfica “Rio de Clarice” foi dirigida por cinco cineastas brasileiras: Nicole Allgranti, Maria Luiza Aboim, Eunice Gutman, Taciana Oliveira e Barbara Kahane. A parceria entre elas revisita diferentes aspectos da obra de Lispector, abordando temas como epifanias, alegrias e a fragilidade das relações humanas, elementos que marcaram a literatura da escritora. A colaboração de Teresa Montero, biógrafa de Clarice Lispector e pesquisadora renomada sobre sua vida e obra, também foi fundamental na elaboração do roteiro.
O elenco do filme conta com nomes de destaque na dramaturgia brasileira, incluindo Letícia Spiller, Gabrielle Farias, Dora Pellegrino, Bruno Barbosa, Louise Cardoso, Lucélia Santos, Madhia, Luiz Octavio Moraes, Ana Chagas, Luiz Ramalho, Ilana Pogrebinschi, Guida Vianna, Letícia Isnard, Freddy Assis Ribeiro, Bia Sion, Julio Levy, Karolyna Mendes, Duaia Assumpção, Hugo Bonèmer e Flávio Bauraqui.
A narrativa do filme aborda diferentes episódios que exploram aspectos profundos da condição humana e da experiência feminina. Entre eles, destaca-se a história que acompanha a tensa comemoração dos 89 anos de Dona Anita, marcada por ressentimentos e hipocrisias familiares que contrastam com a atmosfera festiva. Outro episódio, intitulado “Mal-estar de um Anjo”, retrata uma personagem que se aproxima bastante de Clarice Lispector, ao sair de uma consulta psicanalítica sob forte chuva e embarcar em um táxi, onde um conflito psicológico se desenrola após a entrada de uma desconhecida que tenta assumir o controle da situação.
Outro conto, “A Bela e a Fera” ou “A Ferida Grande Demais”, narra a experiência de Carla, uma mulher rica e segura, mas infeliz em seu casamento, que acaba em uma rodoviária marcada pela pobreza após um imprevisto com o motorista. Ela é acolhida por uma mulher em situação de rua, o que provoca um choque de realidade. Outros episódios do filme abordam temas como a rotina de Hanna, uma mulher que, durante uma viagem de bonde, vivencia uma epifania de autodescoberta ao se perder no parque, e uma história de violência sofrida por uma jovem criada pela empregada devido à ausência do pai, que serve como catalisador para seu amadurecimento emocional.
“Rio de Clarice” representa uma homenagem à escritora e uma releitura contemporânea de sua obra, destacando a relevância de Clarice Lispector na literatura brasileira e sua capacidade de explorar as complexidades do ser humano, especialmente a experiência feminina, por meio de narrativas introspectivas e dialogadas.









