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Histórias de piratas e corsários no Brasil colonial revelam práticas de saque e estratégias marítimas

31/08/2026
Em Ciência
Tempo de leitura:3 minutos de leitura
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Antes mesmo da consolidação da costa brasileira, o litoral do país já era palco de episódios de roubo, disputa e violência marítima. Após a invasão portuguesa e a ocupação europeia iniciada no período colonial, surgiram no Brasil figuras que hoje seriam identificadas como piratas, embora sua atuação diferisse do estereótipo popular de criminosos desalmados. Muitos desses invasores possuíam considerável riqueza e atuavam com respaldo de seus governos, configurando-se mais como corsários do que como piratas comuns.

A história da pirataria no Brasil está relacionada a um fenômeno que remonta à Antiguidade, quando as primeiras civilizações começaram a navegar pelos mares. Júlio César, por exemplo, já foi vítima de sequestro por piratas do Mar Egeu em sua juventude. No entanto, a fase mais conhecida da pirataria na história marítima mundial ocorreu entre os séculos 16 e 18, durante as Grandes Navegações, período em que as potências europeias expandiram seus domínios ultramarinos.

O Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494, dividiu o “Novo Mundo” entre Portugal e Espanha, mas não satisfez as demais nações europeias, que permaneciam de fora do acordo. Como consequência, países como França, Inglaterra e Holanda passaram a enviar expedições para explorar e saquear as riquezas do continente americano, especialmente ao longo da costa brasileira. Essa atividade resultou na presença de corsários, que operavam com cartas de corso — documentos oficiais emitidos pelos monarcas autorizando ataques a nações inimigas, com os espólios divididos entre o Estado e os proprietários de navios privados.

Ao contrário da imagem de piratas miseráveis, esses corsários frequentemente eram ligados à nobreza e ao alto capital de suas nações de origem. Segundo a professora e doutora em Letras Sheila Hue, eles eram considerados heróis nacionais em seus países de origem, recebendo homenagens e reconhecimento após suas expedições. No Brasil, áreas como Ilha Grande, Angra dos Reis, Ilhabela e São Sebastião apresentaram alta incidência de ataques piratas, devido às suas características geográficas favoráveis a esconderijos e às rotas marítimas que ligavam o Atlântico ao Oceano Pacífico e às Ilhas Malvinas.

Um episódio emblemático da atuação desses corsários ocorreu em 1591, na vila de Santos. Thomas Cavendish, um corsário inglês, invadiu a localidade durante a Missa do Galo, na véspera de Natal, capturando habitantes e saqueando o que encontrou. Ele ocupou o colégio dos jesuítas e passou dois meses destruindo casas, igrejas, arquivos públicos e engenhos de açúcar. Sua saída foi marcada por incêndios na vila de São Vicente e por uma tentativa frustrada de atravessar o Estreito de Magalhães, que foi impedida por tempestades. O episódio resultou na morte de grande parte de sua tripulação, com apenas 16 dos 75 homens retornando à Inglaterra.

A presença francesa na costa brasileira também foi marcante, especialmente durante o século 17. Jean França, historiador e professor da Unesp, destaca que, após um período de guerras civis na França, a marinha do país passou por modernizações que permitiram o fortalecimento de corsários como instrumentos de expansão marítima. Um exemplo foi Jean-François Duclerc, que, em 1710, tentou atacar o porto do Rio de Janeiro, então uma das principais regiões de armazenamento de ouro proveniente de Minas Gerais. Sua tentativa de desembarque na Baía de Guanabara foi frustrada pelas fortalezas locais, levando-o a desembarcar na praia de Guaratiba, onde foi derrotado. Posteriormente, foi capturado, preso e assassinado, em circunstâncias que ainda geram especulações, envolvendo motivações políticas ou passionais.

Outro ataque francês relevante ocorreu em 1711, sob comando de René Duguay-Trouin, que liderou uma expedição com quase seis mil homens — uma força desproporcional à população do Rio de Janeiro, que na época não ultrapassava 12 mil habitantes. O objetivo era capturar os navios que transportavam ouro para Portugal, especialmente na rota dos Açores. A invasão ocorreu sob nevoeiro, uma condição comum na Baía de Guanabara, o que facilitou a aproximação das embarcações. Após dois meses de sequestro, o porto foi devolvido mediante pagamento de resgate, incluindo ouro, açúcar, bois e escravos.

A documentação dessas ações, incluindo relatos de viagens, cartas de corso, registros navais e documentos diplomáticos, permite reconstruir a história das estratégias e práticas de saque que marcaram o sistema comercial transatlântico durante o período colonial. Essas narrativas revelam não apenas as táticas de invasão, mas também a complexidade de um sistema que envolvia interesses políticos, econômicos e militares na era de expansão europeia sobre o continente americano.

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