Uma equipe de 16 cientistas realiza uma das maiores expedições de prospecção de biodiversidade já registradas na Serra do Aracá, localizada no extremo norte do Amazonas, a cerca de 220 quilômetros de Barcelos. Financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e apoiada pelo Exército Brasileiro, a missão busca coletar uma ampla variedade de espécimes de fauna e flora, além de amostras de água, solo e sangue de espécies que provavelmente existem exclusivamente na região de altitude dessas montanhas isoladas.
A expedição, que teve início em 24 de agosto, é marcada pelo esforço coordenado de pesquisadores de diversas instituições nacionais e internacionais, incluindo a Universidade de São Paulo (USP), o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a Universidade Federal do Amazonas (Ufam), além de universidades da França, Espanha, Estados Unidos e Noruega. Entre os especialistas, há biólogos, botânicos, herpetólogos, ornitólogos e mamalólogos, todos com vasta experiência de trabalho na Amazônia. O objetivo principal é compreender a biodiversidade desse ecossistema de altitude, que abriga espécies distintas das encontradas na planície amazônica.
A rotina de coleta no campo revela a diversidade de estratégias utilizadas pelos pesquisadores. Enquanto os botânicos concentram-se na coleta visual de plantas, buscando espécimes em flor ou com frutos para facilitar a identificação, os zoologistas enfrentam o desafio de capturar animais que se escondem ou estão ativos em diferentes horários do dia. Os ornitólogos, por exemplo, despertam às 4h da manhã para montar redes de captura de aves, como corujas, bacuraus e guácharos, aproveitando o período de maior atividade dessas espécies ao amanhecer. Esses espécimes são submetidos a procedimentos de pesagem, medição, coleta de tecidos e conservação, com rigor científico para garantir a integridade das amostras.
Na fauna de pequenos mamíferos, a captura de um roedor do gênero Zygodontomys, que não havia sido registrado em expedições anteriores na região, marcou um momento importante para os pesquisadores. A descoberta foi considerada um avanço, pois indica a presença de espécies raramente encontradas em ambientes de alta altitude na região. Os especialistas também enfrentam dificuldades na observação de anfíbios, que são mais ativos durante a noite, aproveitando a umidade e temperaturas amenas para cantar e disputar território. As atividades noturnas envolvem o uso de lanternas e gravações de áudio para identificar os diferentes cantos dos anuros, cuja análise exige atenção a detalhes como a frequência do som, que varia conforme o tamanho do animal e a temperatura ambiente.
Durante os primeiros dias de trabalho, os botânicos coletaram mais de 100 espécimes de plantas, incluindo espécies de canela-de-ema, do gênero Vellozia, e orquídeas terrestres do gênero Catasetum. Essas amostras serão preservadas no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e distribuídas para outros herbários brasileiros e internacionais, fortalecendo o conhecimento sobre a flora local. A coleta de plantas ocorre durante o dia, com a análise visual do estado das vegetações e a coleta de material reprodutivo, essenciais para a identificação taxonômica.
A diversidade de espécies de anfíbios e répteis também é alvo de atenção especial. Após o jantar, por volta das 18h, equipes de herpetologia partem para as incursões noturnas, munidas de lanternas, para registrar as espécies crepusculares e noturnas. O método inclui a captura de sapos, rãs e pererecas, além da gravação de seus cantos, que são analisados posteriormente para confirmação de espécies. Essa abordagem rigorosa permite a associação de sons a indivíduos específicos, fundamental para a validação das identificações, já que o canto varia de acordo com fatores ambientais e do próprio animal.
Até o momento, as coletas de anfíbios e lagartos revelaram uma diversidade significativa, incluindo a captura de uma possível nova espécie de lagarto, adaptada às condições de solo arenoso do platô. A expectativa dos pesquisadores é de que o isolamento geográfico da região possa revelar ainda mais formas de vida inéditas, contribuindo para o conhecimento científico e para a preservação desse ecossistema único na Amazônia.









