A Justiça de Minas Gerais determinou a suspensão imediata e por tempo indeterminado do exercício da medicina do cirurgião plástico Rodrigo Ribeiro Credidio, em decisão proferida na última quarta-feira, dia 2 de setembro. A medida foi solicitada pela Defensoria Pública de Minas Gerais (DPMG) e decorre de uma ação civil pública que investiga possíveis irregularidades envolvendo o profissional, especialmente após a morte da servidora pública Norma Eduarda da Fonseca, aos 59 anos, ocorrida em abril de 2024.
A decisão judicial, assinada pelo juiz Elias Charbil Abdou Obeid, da 26ª Vara Cível da Comarca de Belo Horizonte, também determina o afastamento de Credidio do cargo de diretor técnico da Clínica Credidio Cirurgia Plástica e Nutrologia, localizada no bairro Anchieta, na região Centro-Sul da capital mineira. A clínica terá 15 dias para indicar um novo responsável técnico com registro ativo no Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM-MG). Caso não cumpra o prazo, poderá ser alvo de fiscalização e eventual intervenção.
Além da suspensão do exercício profissional, a Justiça exige que a clínica entregue, em até 15 dias, todos os prontuários, termos de consentimento informado e históricos clínicos de pacientes submetidos a cirurgias com Credidio entre 2019 e 2024. O não cumprimento dessa determinação poderá resultar na busca e apreensão dos documentos. A decisão também prevê a publicação de edital para dar publicidade à ação coletiva e possibilitar que outras vítimas do médico possam se manifestar no processo. O Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) e o CRM-MG serão oficialmente comunicados para as providências cabíveis.
A decisão judicial considerou depoimentos, investigações preliminares de inquéritos policiais e sindicâncias que apontam para um padrão de conduta de risco por parte do profissional. Entre os fatores destacados estão a realização de múltiplos procedimentos de alta complexidade em uma mesma sessão cirúrgica, além de supostas falhas na comunicação com as pacientes e no acompanhamento pós-operatório. O magistrado também levou em conta um Processo Ético-Profissional instaurado pelo CRM-MG contra Credidio.
Outro aspecto mencionado na decisão refere-se às condições sanitárias da clínica, que, segundo o documento, operou sem alvará sanitário adequado em dois períodos, de 2019 a 2020 e de 2021 a 2024. Uma fiscalização realizada pela Vigilância Sanitária em 26 de abril de 2024 constatou irregularidades graves, como instrumentos cirúrgicos com validade expirada, falta de rastreabilidade de medicamentos e ausência de Plano e Núcleo de Segurança do Paciente. Apesar de a clínica ter obtido um novo alvará sanitário em julho de 2026, o juiz e o MPMG entenderam que a regularização posterior não elimina as irregularidades ocorridas anteriormente ou a possibilidade de riscos à segurança dos pacientes.
A morte de Norma Eduarda da Fonseca, ocorrida após uma cirurgia realizada em um hospital no bairro Belvedere, foi o episódio que ganhou maior repercussão. Norma passou por cinco procedimentos cirúrgicos simultâneos em fevereiro de 2024, com duração aproximada de sete horas. No dia seguinte ao procedimento, apresentou sintomas graves, como vômitos, diarreia, necrose e inchaço, e buscou atendimento médico, que teria sido feito de forma remota por mensagens. Ela foi internada com uma infecção bacteriana hospitalar multirresistente, permanecendo por 62 dias até falecer por falência múltipla de órgãos.
O filho de Norma, Gustavo Botelho, de 30 anos, destacou a luta da família por justiça e afirmou que a decisão judicial representa apenas o começo de um processo que busca responsabilizar o profissional pelos danos causados. O caso também gerou relatos de outras ex-pacientes, que relataram complicações semelhantes, incluindo infecções graves e danos estéticos, ocorridas após procedimentos realizados pelo médico entre 2017 e 2024.
A clínica afirmou que recorrerá da decisão judicial, alegando que ela foi proferida em desacordo com a legislação vigente. A defesa do médico também sustenta que todas as licenças e alvarás sanitários estão em dia, e que as provas de sua regularidade já foram apresentadas. A expectativa é de que o recurso seja analisado pelas instâncias superiores, enquanto o processo tramita para apurar as circunstâncias que levaram à suspensão do exercício profissional de Credidio.








