Um episódio ocorrido em 1987, envolvendo a dispersão de aproximadamente 15 mil latas de maconha no litoral brasileiro, será retratado na produção cinematográfica “Verão da Lata”, dirigida por Santiago Dellape. O filme, que integra a programação da 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, estreia nos cinemas em 19 de novembro e traz uma narrativa que mistura fatos reais, personagens fictícios e referências à cultura popular dos anos 1980.
O incidente teve início quando o navio Solana Star, vindo da Austrália com destino aos Estados Unidos, transportava cerca de 22 toneladas de maconha. Durante uma operação de fiscalização por parte das autoridades brasileiras, a tripulação optou por lançar a carga ao mar, dispersando as latas de droga ao longo do litoral entre os estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Posteriormente, essas latas começaram a aparecer nas praias, gerando uma série de histórias e especulações na época.
Segundo o roteirista Davi Mattos, o filme é uma comédia policial baseada em fatos reais, mas com forte grau de ficção. A narrativa foi construída a partir de relatos e histórias que emergiram após as latas começarem a ser encontradas na praia, incluindo episódios que parecem saídos de uma comédia de ação. Uma das curiosidades do caso envolve a busca pelo navio Solana Star, que permaneceu desaparecido por 11 dias após a dispersão da carga. A Marinha e a Polícia Federal realizaram buscas intensas, mas o navio só foi localizado anos depois, ancorado em um local que, segundo o filme, só será revelado na trama.
Outro aspecto real que o filme retrata de forma fiel é uma confusão de nomes que atrasou a localização do navio. Essa confusão, considerada por Mattos como uma das razões que permitiram à tripulação fugir do Brasil pelo Aeroporto do Galeão, foi um erro burocrático que facilitou a fuga dos responsáveis pelo transporte da droga. A história, marcada por esses detalhes absurdos, foi pesquisada durante mais de uma década pelos roteiristas, que buscavam captar o humor e a surrealidade do episódio.
A produção aposta na estética dos filmes de ação dos anos 1980, como “Máquina Mortífera” e “Um Tira da Pesada”, adaptando esses elementos ao contexto brasileiro. A dupla de protagonistas, Sandra e Brasa, interpretados por Samantha Schmütz e Babu Santana, foi escolhida justamente pelo contraste visual e de personalidades, reforçando o tom cômico e malandro da narrativa. Santiago Dellape, diretor do filme, explica que a escolha dos atores e a estética retrô ajudam a criar uma atmosfera que remete às produções daquela década, incluindo referências visuais, uso de imagens de arquivo e trechos de documentários que reforçam a veracidade do episódio.
“Verão da Lata” também busca explorar a linguagem visual e narrativa dos anos 1980, buscando uma ambientação que mistura ficção, imagens de arquivo e referências televisivas da época. A intenção é mostrar ao público que o episódio, embora cheio de elementos humorísticos, é uma parte real da história brasileira, e não uma lenda urbana. A escolha de exibir o filme na sessão de encerramento do Festival de Brasília representa uma oportunidade de Santiago Dellape apresentar seu trabalho na cidade onde reside e atua como cineasta, após anos de desenvolvimento do projeto e quase quatro décadas do episódio que o inspirou.
O filme, além de retratar um episódio inusitado da história do Brasil, reforça a capacidade do cinema de transformar fatos reais em narrativas que combinam humor, ação e cultura popular, aproximando o público de uma história que mistura absurdos e realidade.







