A Rússia tem realizado esforços de recrutamento de cidadãos americanos para integrar suas forças militares na guerra na Ucrânia, oferecendo incentivos financeiros significativos. De acordo com uma reportagem publicada pelo New York Post, o país oferece um bônus de US$ 26 mil (aproximadamente R$ 138 mil, sem considerar variações cambiais) e salários mensais de US$ 2 mil (cerca de R$ 10,4 mil) para atrair americanos interessados em se alistar nas tropas russas.
Até o momento, pelo menos 18 cidadãos dos Estados Unidos foram identificados pelas autoridades ucranianas entre os estrangeiros que se alistaram para combater ao lado da Rússia. O recrutamento de combatentes estrangeiros teria se intensificado desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022, devido às pesadas perdas sofridas por Moscou. Estimativas britânicas citadas pelo jornal indicam que a Rússia teria registrado cerca de 1,5 milhão de baixas, incluindo aproximadamente 500 mil mortos, desde o começo do conflito.
Vitaliy Matvienko, responsável por um projeto estatal ucraniano dedicado às rendições russas, afirmou que Moscou perde entre 30 mil e 40 mil homens por mês e tem utilizado estrangeiros como uma estratégia para compensar essas perdas. Segundo ele, muitos desses combatentes estrangeiros são enviados diretamente para áreas de intenso conflito, onde ficam expostos a ataques de drones, artilharia e forças ucranianas.
As autoridades de segurança da Ucrânia também revelaram a identificação de quase 29 mil estrangeiros de 135 países lutando ao lado da Rússia, incluindo cidadãos da Coreia do Norte, Quênia e Gana. No entanto, Kiev afirma que o número real de combatentes estrangeiros seria consideravelmente maior, devido à dificuldade de controle e monitoramento dessas forças.
A reportagem aponta que intermediários, atuando em diferentes países, utilizam plataformas como Facebook, TikTok e Telegram para divulgar anúncios de recrutamento. Esses agentes recebiam cerca de US$ 24 mil (aproximadamente R$ 125 mil) por cada recrutamento bem-sucedido, além de uma parcela dos pagamentos destinados aos combatentes. Pessoas em situação de vulnerabilidade social ou econômica, bem como indivíduos atraídos por discursos ideológicos, figuram entre os principais alvos dessas operações.
Entre os casos mais emblemáticos está o do americano Seth William Baker, de Gilbert, no Arizona. Ex-integrante do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, Baker morreu aos 23 anos, cerca de três meses após ingressar nas forças russas. Baker havia servido na Marinha dos EUA aos 18 anos, recebendo a Medalha do Serviço de Defesa Nacional, e deixou as forças após recusar-se a tomar a vacina contra a Covid-19, na época obrigatória para militares americanos. Segundo Matvienko, o perfil de Baker exemplifica o tipo de pessoa buscada pelos recrutadores, especialmente aqueles que enfrentam dificuldades de inserção social ou profissional.
Outro caso de grande repercussão foi o de Michael Gloss, de 21 anos, filho de uma autoridade da CIA. Ele morreu em abril de 2024, enquanto combatia pelas forças russas, após sofrer uma grande perda de sangue durante um ataque de artilharia em Donetsk. Sua morte foi confirmada pelo pai, Larry Gloss, veterano da Marinha dos Estados Unidos, e pela mãe, Juliane Gallina, vice-diretora de inovação digital da agência de inteligência americana. Segundo relato do pai, Michael tentou ajudar um soldado russo ferido no momento do ataque.
O presidente russo Vladimir Putin chegou a entregar uma medalha à família de Gloss durante uma visita oficial, em gesto de reconhecimento. Além desses, há o caso de Wilmer Puello-Mota, ex-integrante da Força Aérea dos EUA e ex-vereador de Holyoke, Massachusetts, que deixou os Estados Unidos enquanto respondia a um processo relacionado a imagens de uma adolescente de 17 anos encontradas em seu telefone. Puello-Mota assinou contrato com as forças russas em abril de 2024 e apareceu em vídeos de propaganda de Moscou. Ele continua combatendo e sofreu ferimentos por estilhaços na perna após uma explosão.
Matvienko destacou que os combatentes estrangeiros desempenham papel importante na propaganda russa, sendo utilizados como evidência de que cidadãos ocidentais apoiariam a narrativa de Moscou sobre o conflito. No entanto, relatos indicam que esses combatentes enfrentam abusos físicos, racismo e tratamento desigual dentro das próprias forças russas, além de serem enviados a operações de alto risco, onde enfrentam grande perigo de morte.









