Uma pesquisa publicada na revista científica The Journal of Politics revela que as declarações contrárias à conservação ambiental feitas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e por membros de seu governo tiveram impacto direto no aumento do desmatamento na Amazônia durante o primeiro ano de seu mandato, em 2019. Os cientistas da Universidade de Bonn, na Alemanha, analisaram milhares de publicações oficiais e de membros do governo brasileiro, identificando uma correlação entre discursos que sugeriam tolerância ou menor rigor na punição de atividades ilegais de exploração florestal e um crescimento na perda de cobertura vegetal na região.
De acordo com o estudo, entre 190 e 1.700 quilômetros quadrados de floresta podem ter sido afetados por esse efeito, que foi constatado após cruzamento de dados de redes sociais, monitoramento por satélite e informações de órgãos como o MapBiomas. A análise envolveu mais de 3.600 publicações, das quais 38 foram consideradas sinais de que o governo estaria adotando uma postura mais permissiva em relação às atividades ilegais de desmatamento e queimadas na Amazônia.
O contexto do estudo aponta para uma situação de enfraquecimento das regulações ambientais e do desmantelamento de agências responsáveis pela proteção da floresta durante o período de 2019 a 2022, sob a gestão de Bolsonaro. O ex-presidente, conhecido por suas posições contrárias às políticas de preservação, cumpriu promessas de flexibilizar regras ambientais, o que, segundo os autores da pesquisa, contribuiu para uma maior percepção de impunidade entre os exploradores ilegais.
Para compreender a influência dessas mensagens, os pesquisadores também analisaram o comportamento de comunidades rurais e extrativistas na região, levando em consideração que o acesso à informação ainda é limitado em áreas remotas da Amazônia. Assim, observaram o histórico de circulação de discursos relacionados ao meio ambiente em municípios onde o tema já era presente na mídia e nas redes sociais antes do mandato de Bolsonaro, entre 2015 e 2018. Nesses locais, a incidência de discursos favoráveis à flexibilização das leis ambientais e à impunidade foi maior, o que se traduziu em um aumento de 2,2% a 6,6% na perda de floresta nesses municípios.
A pesquisa também aponta que as mensagens do governo, embora não tenham alterado diretamente a legislação ou as multas ambientais, criaram um efeito de “normalização” de práticas ilegais, ao sugerir que autoridades não estavam dispostas a fiscalizar ou punir adequadamente os infratores. Essa percepção, segundo os autores, incentivou uma maior exploração da floresta, contribuindo para o aumento do desmatamento.
Apesar de o tamanho da área desmatada na Amazônia apresentar tendência de redução nos últimos anos — passando de 11.594 km² em 2022 para 5.731 km² em 2025, conforme dados preliminares do Carbon Brief de setembro de 2026 — o estudo evidencia que o impacto das declarações políticas pode ter contribuído para o aumento dos índices no período analisado. O levantamento reforça a importância de uma comunicação responsável por parte das lideranças políticas na preservação do bioma, especialmente em uma região tão sensível e vital para o equilíbrio ambiental global.








