Pesquisadores identificaram duas trilhas de pegadas fossilizadas em Turvo, Santa Catarina, que indicam a presença de animais do grupo dos mamíferos e de seus parentes próximos, de tamanho superior ao registrado anteriormente na Formação Botucatu. Essas pegadas representam as maiores marcas semelhantes às de mamíferos já encontradas no Cretáceo Inferior de Gondwana, antigo supercontinente do qual a América do Sul fazia parte. A descoberta amplia o entendimento sobre a diversidade de tamanhos desses animais no período, especialmente em um contexto dominado pelos dinossauros.
O estudo, publicado na revista Journal of South American Earth Sciences, analisou as pegadas preservadas em duas placas de arenito coletadas na pedreira AR Mineração, localizada na região de Turvo. Na época em que esses animais passaram pelo local, a área integrava o deserto de Botucatu, uma vasta região de dunas que existiu durante a era dos dinossauros, há aproximadamente 125 milhões de anos. As pegadas apresentam impressões de quatro dedos, com marcas curtas e arredondadas, sugerindo que os animais se deslocavam sobre quatro patas. A organização das trilhas e o formato das marcas indicam um padrão de locomoção típico de quadrúpedes.
Após comparações com outros rastros conhecidos, os pesquisadores atribuíram as pegadas a um provável membro do grupo Mammaliaformes, que inclui os mamíferos e seus parentes evolutivos próximos. As pegadas foram classificadas na icnofamília Chelichnopodidae, categoria que agrupa marcas com características semelhantes, sem a identificação precisa da espécie responsável. O tamanho dessas impressões supera todas as pegadas atribuídas a mamíferos já descritas na Formação Botucatu, representando uma novidade importante para a paleontologia regional.
A descoberta evidencia que o porte desses animais foi maior do que se imaginava até então para o início do Cretáceo, período em que os dinossauros dominavam o planeta. Tradicionalmente, os primeiros mamíferos são associados a espécies de pequeno porte, muitas vezes semelhantes a roedores ou pequenos mamíferos atuais. No entanto, as novas trilhas sugerem que animais de maior tamanho também coexistiram com dinossauros, indicando uma maior diversidade de formas e tamanhos no grupo durante esse período.
Segundo os autores do estudo, esses achados sugerem que o desenvolvimento de tamanhos corporais maiores entre os mamíferos ocorreu de forma mais precoce e frequente do que se acreditava anteriormente. Ainda assim, a pesquisa não permite afirmar qual foi o maior mamífero da era dos dinossauros, uma vez que os restos de esqueletos na Formação Botucatu são extremamente raros. As pegadas, portanto, desempenham um papel fundamental na reconstrução da vida na antiga região desértica, oferecendo informações valiosas sobre o comportamento, o tamanho e o deslocamento desses animais em um ambiente de dunas, há milhões de anos.
A descoberta reforça a importância de estudos paleontológicos na região de Santa Catarina, contribuindo para o entendimento da evolução dos mamíferos e de sua diversidade de tamanhos durante o período dos dinossauros. Além de indicar a presença de animais de porte relativamente grande, as pegadas preservam detalhes sobre a locomoção e o modo de vida dos seres que habitaram o antigo deserto de Botucatu, ampliando o conhecimento sobre a fauna que coexistiu com os dinossauros na Gondwana.








