O SS United States, transatlântico que transportou presidentes norte-americanos, estrelas de Hollywood, artistas renomados e até a Mona Lisa, será afundado no dia 12 de novembro, no Golfo do México. A operação, planejada pelo condado de Okaloosa, na Flórida, pretende transformar a embarcação no maior recife artificial do mundo, criando um novo habitat para espécies marinhas e uma atração para mergulhadores.
Com 302 metros de comprimento, o navio será levado para uma área localizada a aproximadamente 41 quilômetros a sudoeste de Destin-Fort Walton Beach. A embarcação permaneceu durante décadas atracada na Filadélfia, enquanto projetos de restauração eram abandonados devido aos custos elevados. Em 2024, o condado de Okaloosa adquiriu o transatlântico, que passou por preparativos para o afundamento em Mobile, no Alabama.
Transatlântico estabeleceu recorde de velocidade
O SS United States realizou sua viagem inaugural em julho de 1952. Na ocasião, cruzou o Oceano Atlântico em três dias, dez horas e 40 minutos, estabelecendo um recorde de velocidade para navios de passageiros que continua válido. Conhecido pelo apelido de “Big U”, o navio também foi projetado para transportar tropas em uma eventual necessidade militar. Por esse motivo, parte dos detalhes de sua construção foi mantida em sigilo.
Ao longo de sua história, o transatlântico recebeu passageiros de grande projeção. Entre eles estiveram os presidentes Harry Truman, Dwight Eisenhower e John F. Kennedy. Bill Clinton também viajou no navio aos 22 anos, antes de se tornar presidente dos Estados Unidos.
A lista de personalidades transportadas inclui ainda Marilyn Monroe, Walt Disney, Salvador Dalí, Coco Chanel, Marlon Brando e Grace Kelly. Em 1963, o SS United States foi utilizado para levar a pintura Mona Lisa através do Atlântico.
O avanço das viagens aéreas reduziu a demanda por travessias marítimas e contribuiu para o fim das operações do transatlântico, em 1969. Desde então, as tentativas de restaurar a embarcação foram prejudicadas pelos altos custos de manutenção. Segundo a revista Oceanographic, a conversão em recife artificial foi escolhida pelo condado depois que outras alternativas foram esgotadas, incluindo o desmanche da estrutura.
Embarcação deverá criar habitat para espécies marinhas
Recifes artificiais são estruturas submersas que oferecem superfícies rígidas para a fixação de algas, corais e outros organismos. A presença desses organismos pode favorecer a formação de áreas de alimentação e abrigo para diferentes espécies, sobretudo em regiões onde o fundo do mar é predominantemente arenoso.
A expectativa do condado é que o SS United States atraia peixes associados a recifes, como pargos-vermelhos e garoupas, além de espécies de águas abertas, entre elas cavalas e atuns. A Associação de Conservação Costeira da Flórida destinou US$ 500 mil ao projeto, valor equivalente a cerca de R$ 2,7 milhões. Segundo a matéria, essa foi a maior doação feita pela entidade em 40 anos, em razão dos benefícios ambientais esperados.
O condado já administra mais de 500 recifes artificiais na região, incluindo estruturas formadas por embarcações naufragadas. O novo recife ficará próximo ao USS Oriskany, um porta-aviões afundado em 2006 nas proximidades de Pensacola, e deverá superar essa estrutura em tamanho.
Antes da operação, equipes especializadas esvaziaram e limparam os 128 tanques de combustível e lubrificantes do navio para reduzir os riscos de contaminação. Também foram removidas tintas e coberturas que continham PCBs, compostos químicos industriais prejudiciais ao meio ambiente.
As chaminés, o mastro do radar, as hélices e mais de 400 vigias — pequenas janelas circulares comuns em embarcações — foram retirados. Parte desses componentes deverá ser exibida em um museu em terra dedicado à história do transatlântico.
Projeto também prevê atração turística e museu
Além dos efeitos ambientais, o condado espera que o recife artificial impulsione o turismo e movimente a economia local. Lojas especializadas em mergulho, empresas de passeios de barco e hotéis poderão se beneficiar do aumento no fluxo de visitantes, conforme informações da CBS News.
A organização SS United States Conservancy planeja criar um museu em terra para complementar a atração submersa e preservar objetos, documentos e registros relacionados à embarcação. Susan Gibbs, presidente da entidade, afirmou que o navio inspirou milhões de pessoas em todo o mundo como símbolo do orgulho e da excelência americana. Para ela, a transformação em recife artificial fará do SS United States uma atração histórica única, tanto acima quanto abaixo da linha d’água.
Uma cerimônia pública de despedida está prevista para 11 de novembro, um dia antes do afundamento. A operação será realizada por meio de inundações controladas, sem o uso de explosivos, com o objetivo de ajudar a manter o navio na posição vertical.
Depois de submersa, a estrutura ficará a aproximadamente 55 metros de profundidade. Os conveses superiores estarão entre 17 e 18 metros abaixo da superfície, permitindo o acesso de mergulhadores. Aberturas feitas no casco deverão facilitar a entrada de animais marinhos. Pesquisadores acompanharão os efeitos do projeto sobre o ecossistema da região.








