O engenheiro biomédico brasileiro Daniel Dahis, de 34 anos, venceu o Eric and Wendy Schmidt Awards for Excellence in Science Communication, concedido pelas Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos (NASEM). Confirmada nesta segunda-feira (26/10), a premiação foi entregue pela primeira vez a um representante do Brasil, na categoria Research Scientist: Early Career, voltada a pesquisadores em início de carreira.
O prêmio reconhece cientistas, jornalistas e criadores de conteúdo que apresentam temas científicos de maneira didática e acessível. No caso de Dahis, a honraria considera o trabalho desenvolvido nas redes sociais para explicar assuntos como o funcionamento das vacinas, doenças, tratamentos e resultados de pesquisas.
O pesquisador mantém uma página no Instagram com 777 mil seguidores. Alguns de seus vídeos já ultrapassaram 2 milhões de visualizações. Como parte da premiação, ele receberá US$ 40 mil, valor equivalente a pouco mais de R$ 210 mil na conversão para a moeda brasileira.
Em entrevista ao Metrópoles, Dahis afirmou que o reconhecimento ocorre em um período de grande circulação de informações conflitantes, especialmente na internet. Para ele, a presença de conteúdos falsos ou distorcidos, inclusive divulgados por pessoas com autoridade, reforça a necessidade de tornar o conhecimento científico mais compreensível.
“Esse prêmio é especialmente importante no contexto em que vivemos, em que existe uma abundância de informações, muitas vezes contraditórias e, às vezes, propagadas por pessoas que têm autoridade. Nas redes sociais, por exemplo, um médico pode divulgar uma informação falsa e dizer que as vacinas não funcionam”, declarou o engenheiro.
Segundo Dahis, alguns conteúdos publicados por ele já tiveram impacto direto nas decisões de pessoas que acompanhavam suas explicações. O pesquisador relatou o caso de uma amiga cujo pai inicialmente não queria tomar a vacina contra herpes-zóster. Depois de receber um dos vídeos produzidos por Dahis, ele decidiu se imunizar.
O engenheiro também afirma receber mensagens de jovens que passaram a considerar uma carreira científica ou a realização de pesquisas depois de entrar em contato com seus conteúdos. Para ele, esses relatos demonstram o alcance que a divulgação científica pode ter, embora seus efeitos sejam difíceis de medir.
“Tenho uma amiga, por exemplo, cujo pai não queria tomar a vacina contra herpes-zóster. Ela encaminhou um dos meus conteúdos para ele, que gostou do que viu e decidiu se vacinar. Já pensou no impacto que isso pode ter em escala? Também recebo mensagens de jovens que decidiram seguir carreira científica ou fazer pesquisa a partir do meu conteúdo. É um impacto imensurável”, disse.
Desinformação pode afetar decisões de saúde
Na avaliação do pesquisador, materiais científicos apresentados em linguagem clara podem funcionar como uma barreira à disseminação de notícias falsas. Ele destaca que informações incorretas sobre tratamentos e doenças podem influenciar escolhas com consequências graves, sobretudo quando são divulgadas por profissionais nos quais os pacientes depositam confiança.
“Vivemos um período em que a desinformação cobra vidas. Imagine, por exemplo, um conteúdo divulgado por um médico dizendo que a ivermectina trata o câncer. Se você é uma paciente oncológica e confia muito naquele médico, existe uma probabilidade considerável de abandonar o tratamento para seguir o que ele está dizendo”, afirmou Dahis.
O engenheiro relata que os vídeos nos quais explica os efeitos reais das vacinas estão entre os conteúdos que mais provocam críticas e ataques nas redes sociais. Ele associa a controvérsia atual ao debate iniciado em 1998 e intensificado pela politização da ciência durante a pandemia de Covid-19.
Apesar das reações, Dahis defende que as vacinas estão entre as tecnologias mais eficazes para ampliar a longevidade. Para ele, a comunicação científica precisa enfrentar diretamente a circulação de informações equivocadas sobre imunização e outros temas de saúde.
Além do trabalho nas redes sociais, o pesquisador lidera o “Eureka!”, uma newsletter gratuita de divulgação científica. A publicação traduz diariamente artigos científicos para uma linguagem mais acessível, com textos que podem ser lidos em um intervalo de três a cinco minutos.
“Precisamos de mais gente defendendo o conhecimento científico em uma época marcada pela desinformação e pela negação da ciência. Como gosto de dizer, uma das piores maneiras de viver é ignorar a ciência. Espero que o prêmio ajude a chamar outros cientistas brasileiros para as redes sociais”, declarou.








