A disfunção cricofaríngea retrógrada, conhecida como “síndrome do não arrotar” ou R-CPD, impede que o ar acumulado no sistema digestivo seja eliminado pela boca. A condição pode causar estufamento, excesso de gases, pressão ou desconforto no peito e ruídos de borbulhamento na garganta. Embora o ato de arrotar seja frequentemente associado a um comportamento indesejado, para pessoas com a síndrome a dificuldade de liberar gases não é uma escolha.
O problema está relacionado ao funcionamento do músculo cricofaríngeo, localizado no esôfago, logo atrás da laringe, estrutura onde ficam as cordas vocais. Esse músculo integra o esfíncter do esôfago superior e participa do processo de deglutição. Não há, atualmente, um exame específico capaz de confirmar a R-CPD. Por isso, o diagnóstico é feito clinicamente, a partir da análise dos sintomas apresentados pelo paciente.
Segundo Guilherme Catani, otorrinolaringologista e professor adjunto da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a síndrome não é uma condição nova. Em entrevista à revista GALILEU, o especialista explicou que os casos sempre existiram, mas passaram a receber mais atenção recentemente. Antes disso, os sintomas muitas vezes eram relacionados a refluxo ou a intolerâncias alimentares.
A R-CPD ganhou maior visibilidade em 2019, após a publicação de um estudo na revista OTO Open, publicação oficial da Fundação da Academia Americana de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço. Desde então, especialistas de diferentes países passaram a investigar com mais frequência o quadro e a buscar formas de tratar ou reduzir o desconforto dos pacientes. Como o conhecimento consolidado sobre a síndrome ainda é recente, não existem dados sobre a quantidade de pessoas afetadas no Brasil ou em outros países.
Falha no mecanismo de liberação do ar
Durante a alimentação, a comida é mastigada e empurrada pela língua para a garganta por meio da deglutição. A laringe precisa abrir espaço para que o alimento atravesse o esôfago em direção ao estômago. Esse movimento envolve os músculos que formam o esfíncter do esôfago superior.
Além de permitir a passagem dos alimentos, o músculo cricofaríngeo também deve relaxar em determinados momentos para que o ar consiga sair. Esse ar pode ser engolido durante o consumo de bebidas, como refrigerantes, ou produzido naturalmente pelo organismo. O especialista compara o mecanismo a uma válvula de escape.
Nas pessoas com R-CPD, o músculo consegue abrir para a passagem da comida, mas não relaxa adequadamente quando o ar precisa ser eliminado pela boca. Como consequência, os gases permanecem acumulados e podem provocar sensação de barriga estufada, pressão no peito, ruídos na garganta e aumento da flatulência.
Medicamentos para emagrecer podem intensificar o desconforto
O aumento do uso de medicamentos conhecidos como canetas emagrecedoras, entre eles Mounjaro e Ozempic, é uma das preocupações atuais relacionadas ao quadro. De acordo com Catani, essas medicações retardam o esvaziamento do estômago, o que pode favorecer a produção e o acúmulo de gases.
Por esse motivo, mesmo pessoas que não têm a síndrome podem apresentar estufamento ou sensação de borbulhamento na garganta durante o uso desses medicamentos. A presença da R-CPD não impede necessariamente o tratamento da obesidade com as canetas, mas pode fazer com que os efeitos gastrointestinais sejam mais incômodos. Pacientes que utilizam esses remédios devem ficar atentos à persistência ou à intensidade dos sintomas.
Toxina botulínica é usada no tratamento
O tratamento mais utilizado para a síndrome envolve a aplicação de toxina botulínica, conhecida popularmente como botox, diretamente no músculo cricofaríngeo. A substância promove o relaxamento do músculo e permite que o ar seja liberado pela boca.
O procedimento é realizado pela boca e pode ser feito com anestesia local ou geral. Conforme explicou Catani, a anestesia geral oferece maior precisão para que a toxina seja aplicada no ponto correto, reduzindo os riscos do procedimento.
Entre as possíveis complicações está o comprometimento temporário da voz. Caso a toxina seja aplicada no local errado ou em quantidade superior à recomendada, ela pode atingir as cordas vocais e provocar relaxamento da estrutura, levando à rouquidão. O efeito, porém, é passageiro, porque a substância não se fixa nas cordas vocais com a mesma intensidade com que atua no músculo cricofaríngeo.
Embora o tratamento ainda seja considerado novo e continue sendo estudado, os relatos observados pelo especialista em congressos indicam que, ao contrário da aplicação estética no rosto, o procedimento contra a R-CPD geralmente não exige retoques. A explicação é que o cérebro pode “aprender” o novo funcionamento: depois que o músculo relaxa e o ar passa com mais facilidade, o organismo começa a enviar comandos para que esse movimento ocorra de forma automática.
Alguns pacientes podem precisar de uma segunda aplicação. Em situações mais complexas, nas quais a toxina não proporciona alívio suficiente, existe a possibilidade de uma cirurgia para seccionar, com laser, algumas fibras do músculo e produzir o relaxamento. Segundo Catani, entretanto, esses casos são raros. A maioria dos pacientes precisa de apenas uma aplicação, e poucos necessitam de uma nova dose.
Na avaliação do resultado, o médico costuma perguntar aos pacientes qual foi o percentual de melhora percebido após o procedimento. O alívio completo é considerado difícil, mas a maior parte relata redução superior a 80% dos sintomas.









