O Ibovespa fechou em queda pelo quinto pregão consecutivo nesta sexta-feira (30) e registrou a pior semana desde março de 2020, período mais crítico da pandemia de covid-19. O movimento refletiu a forte revisão das posições dos investidores após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O dólar avançou mais de 1% e encerrou o dia próximo de R$ 5,45, na maior cotação de fechamento registrada em 2026.
O principal índice da Bolsa brasileira caiu 0,75% no pregão, aos 167.921,80 pontos. Na semana, o recuo acumulado foi de 18,12%, o maior desde a queda de 18,88% registrada na semana encerrada em 20 de março de 2020. Durante a sessão, o Ibovespa chegou a 167.007,57 pontos na mínima e alcançou 169.184,60 pontos na máxima. Em outubro, o índice acumulou perda de 9,88%, o pior resultado mensal desde junho de 2022.
O volume financeiro movimentado na B3 somou R$ 43,47 bilhões, em uma sessão que antecedeu o fim de semana prolongado pelo feriado de segunda-feira. Para Nicolas Gass, chefe de alocação de investimentos e sócio da GT Capital, a queda foi consequência direta da desmontagem de uma aposta concentrada na mudança de governo.
“O ponto central é que o mercado tinha apostado numa troca de governo e numa virada fiscal. Com a reeleição do Lula, essa aposta foi desmontada de uma vez”, afirmou Gass.
O Ibovespa havia renovado máximas no início de outubro, quando ultrapassou os 209 mil pontos. Naquele momento, a liderança do senador Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno da eleição presidencial havia alimentado as expectativas de uma mudança política em Brasília. O resultado do segundo turno, porém, confirmou a vitória de Lula, que conquistou o quarto mandato.
Segundo Gass, a continuidade do governo reduziu as expectativas de alteração na condução das contas públicas. Esse cenário pressionou os juros de longo prazo e diminuiu a perspectiva de cortes mais agressivos da taxa Selic. O especialista também destacou a saída de recursos estrangeiros das ações brasileiras.
Dados mais recentes divulgados pela B3 indicam retirada líquida de quase R$ 7,6 bilhões por investidores estrangeiros do mercado secundário nos três primeiros pregões da semana. Apesar disso, o saldo acumulado no mês permanece positivo em quase R$ 8,6 bilhões. No ano, a entrada líquida chega a quase R$ 36 bilhões. Apenas no primeiro pregão após o primeiro turno, o fluxo estrangeiro havia sido positivo em R$ 10 bilhões.
Exterior amplia pressão sobre ativos brasileiros
O ambiente internacional também contribuiu para a aversão ao risco. As ações de tecnologia recuaram após a divulgação dos balanços de empresas como Alphabet e Amazon.com, aumentando as preocupações sobre os investimentos em inteligência artificial. Em Nova York, o índice S&P 500 caiu 1,82% nesta sexta-feira.
O real esteve entre as moedas de pior desempenho. O dólar à vista chegou a R$ 5,4621 durante a tarde, acompanhando o momento de maior pressão nas bolsas norte-americanas, e terminou o dia em alta de 1,05%, a R$ 5,4443. Em outra referência de fechamento, a moeda foi apontada com valorização de 1,09%, a R$ 5,4460.
Na semana, a alta do dólar alcançou 9,04%, impulsionada principalmente pelo avanço de 8,12% registrado na segunda-feira (26). Foi a maior valorização semanal desde a semana encerrada em 24 de outubro de 2008, durante a crise financeira global provocada pelo colapso do setor imobiliário nos Estados Unidos. Em outubro, a moeda subiu 5,20% e passou a acumular alta de 0,81% no ano.
Ricardo Chiumento, head da Tesouraria do BS2, afirmou que os investidores haviam se posicionado de forma “unilateral” para uma vitória da oposição e para a adoção de um ajuste fiscal robusto a partir de 2027. A reversão dessas posições ocorreu em um momento de maior preocupação internacional com o setor de tecnologia dos Estados Unidos e com a inflação.
Chiumento também citou a pressão sobre o petróleo e os sinais de que bancos centrais de países desenvolvidos podem adotar uma política monetária mais restritiva. Ele mencionou ainda o risco de escalada do conflito no Oriente Médio após as eleições parlamentares de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para a próxima terça-feira (3).
Internamente, sinais divergentes sobre medidas de ajuste fiscal e a indefinição em relação ao futuro ministro da Fazenda mantêm os investidores cautelosos. A possibilidade de o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, assumir a pasta chegou a influenciar o mercado, mas Fonteles afirmou, em publicação no X, que não tratou de cargos com Lula e que não havia visita do presidente ao Piauí agendada.
Para Chiumento, a preocupação com as contas públicas atingiu um nível elevado e o Ibovespa e o real podem sofrer novas perdas caso o governo não consiga recuperar a confiança dos investidores. Diante desse quadro, ele avalia que o Comitê de Política Monetária (Copom) deve manter a Selic em 13,75% na reunião da próxima quarta-feira (4).
A estrategista sênior de câmbio do banco holandês ABN-Amro, Georgette Boele, afirmou que Lula precisará demonstrar uma melhora das contas públicas para tranquilizar o mercado. Ela avaliou, contudo, que a queda dos ativos foi exagerada e que o real pode se recuperar, apoiado pelo compromisso do Banco Central com o controle da inflação, pelos juros reais elevados e pela expectativa de estabilização do cenário político.
A partir de terça-feira, a B3 também alterará os horários de negociação por causa do fim do horário de verão nos Estados Unidos, em 1º de novembro de 2026, e na Alemanha e na Inglaterra, em 25 de outubro. O pregão será ampliado em uma hora, e o call de fechamento começará às 17h55 e terminará às 18h.









