Uma rede clandestina ligada ao Ministério da Defesa e Logística das Forças Armadas do Irã movimentou pelo menos US$ 2 bilhões em equipamentos militares, explosivos e veículos pesados desde janeiro de 2025, contornando o bloqueio naval dos Estados Unidos e outras sanções ocidentais. A estrutura, revelada por uma investigação da Reuters em parceria com a consultoria 240 Analytics, reúne mais de 5 mil agências identificadas por nomes iniciados com “MOD”, sigla em inglês para Ministério da Defesa.
Os registros analisados indicam que a rede abasteceu programas iranianos de mísseis balísticos e drones durante a guerra iniciada em 28 de fevereiro deste ano. Uma das principais entidades, a MOD 346428, importou US$ 2,3 bilhões em equipamentos entre janeiro de 2025 e junho de 2026, incluindo produtos químicos usados em combustíveis de foguetes, detonadores, componentes de armas, peças para motores de aeronaves e caminhões que podem ser adaptados como lançadores móveis.
A investigação foi baseada em milhares de documentos bancários e governamentais iranianos, registros corporativos, dados de importação e conhecimentos de embarque. A Reuters também cruzou informações de cerca de 19 mil registros de comércio exterior com imagens de redes sociais, reportagens da imprensa estatal e documentos publicados no WikiIran, site que reúne dados vazados da República Islâmica.
Estrutura paralela de financiamento e compras
Todas as agências identificadas compartilham o endereço do Ministério da Defesa e Logística das Forças Armadas do Irã, conhecido pela sigla MODAFL, em Teerã. Os registros indicam como data de constituição o dia 11 de fevereiro de 1979, quando o aiatolá Ruhollah Khomeini assumiu o poder após a derrubada da monarquia. A maior parte das entidades, porém, teria sido criada em 2013, período em que as sanções provocaram forte queda nas exportações iranianas de petróleo.
As agências funcionam como uma rede de empresas de fachada e intermediários estrangeiros, chamados coletivamente de “curadores”. Eles utilizam recursos obtidos com a venda ilegal de petróleo para adquirir mercadorias destinadas ao governo iraniano. A estrutura também estaria ligada à Guarda Revolucionária Islâmica, conhecida como GRI, e às bonyads, conglomerados quase estatais controlados pela elite do país.
Documentos do Banco Sepah, instituição estatal responsável por pagamentos de salários e aposentadorias da GRI, mostram que números de telefone registrados em nome de 91 agências aparecem associados a integrantes do corpo militar. Entre eles estão pelo menos dois comandantes que foram acusados pelos Estados Unidos de abusos contra manifestantes civis.
Apesar de as Forças Armadas iranianas estarem sob sanções americanas há décadas, a Reuters não encontrou evidências de que qualquer uma das agências numeradas mencionadas nos documentos tenha sido formalmente sancionada por governos ocidentais.
“O que temos aqui é a linha de vida militar do regime durante este conflito e por muitos anos antes disso”, afirmou Miad Maleki, ex-alto funcionário do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos que participou da elaboração do programa de sanções contra o Irã. Segundo ele, a rede representa “o ecossistema completo das atividades comerciais das Forças Armadas iranianas”.
Importações incluem explosivos, produtos químicos e caminhões
Durante os primeiros seis meses de 2026, os registros apontam a entrada no Irã de detonadores no valor de US$ 1,9 milhão, toneladas de explosivos, peças de motores de aeronaves, ingredientes para combustível de foguetes e veículos capazes de transportar cargas pesadas. Especialistas consultados pela Reuters afirmaram que os itens podem ser utilizados na fabricação e no lançamento de mísseis balísticos e drones, incluindo os modelos da série Shahed.
Entre janeiro e abril de 2025, a MOD 346428 importou 886 toneladas de produtos químicos para o complexo portuário de Bandar Abbas. A carga foi declarada como proveniente da China e registrada sob um código que inclui cloratos de sódio e outros percloratos, substâncias usadas como precursores de combustíveis sólidos para foguetes.
Três dias depois da chegada da última remessa, uma explosão atingiu o porto, em 26 de abril. O acidente matou pelo menos 70 pessoas e deixou mais de 1.200 feridos. Duas pessoas familiarizadas com o caso disseram que a explosão foi provocada pela ignição de perclorato de sódio armazenado em contêineres no cais. A imprensa estatal informou que os produtos estavam sob responsabilidade da Sina Port and Marine Services Development Co., empresa pertencente à Bonyad Mostazafan, fundação multibilionária controlada diretamente pelo líder supremo do Irã.
A Reuters não conseguiu confirmar se a última remessa, de 75 toneladas, foi responsável pela explosão. Na época, o diretor executivo da Sina afirmou que o acidente estava relacionado a uma “declaração falsa” sobre o conteúdo de uma carga entregue “sem documentos e sem etiquetas”. Os Estados Unidos impuseram sanções à Bonyad Mostazafan em 2020, sob a alegação de que a fundação era usada para enriquecer o gabinete do líder supremo e recompensar aliados.
A organização é dirigida por Hossein Dehghan, que ocupou o cargo de ministro da Defesa entre 2013 e 2017. Antes disso, ele comandou forças da Guarda Revolucionária no Líbano durante o atentado de 1983 contra tropas internacionais em Beirute, que matou 241 militares americanos, 58 paraquedistas franceses e civis libaneses. Os Estados Unidos atribuíram o ataque ao Irã. Dehghan não respondeu aos pedidos de comentário enviados pela Reuters.
A rede também importou caminhões pesados. Entre janeiro de 2025 e junho de 2026, a MOD 346428 recebeu 435 caminhões Iveco, além de milhares de caminhonetes Toyota Hilux e Land Cruiser. Segundo especialistas, esses veículos podem ser modificados para transportar mísseis, drones e metralhadoras pesadas.
Em 2022, seis caminhões Iveco Eurocargo foram comprados por 426 mil euros por um revendedor iraniano residente na Itália. Os veículos foram enviados à empresa Deilami Trading Co., em Dubai, e depois transportados para Bandar Abbas. O destinatário final, identificado por um código governamental de 11 dígitos, era a MOD 346428. A lista de embalagem indicava que os veículos seriam entregues à Sahara Thunder, empresa sancionada pelos Estados Unidos em 2024 por fabricar e fornecer drones à Rússia.
A Iveco afirmou que seus distribuidores são obrigados a impedir o uso militar, químico, biológico ou nuclear dos produtos. A companhia disse não ter registro da venda realizada em 2022 e declarou que não controla mercadorias transferidas por terceiros sem relação contratual direta. Segundo a empresa, qualquer presença de veículos Iveco no Irã ocorreu fora do controle e da responsabilidade do grupo.
Em janeiro de 2025, a MOD 346428 também importou quatro Toyota Tundras, modelo que a Guarda Revolucionária utiliza para transportar drones. Imagens de protestos no Irã mostram forças de segurança usando veículos Land Cruiser equipados com metralhadoras. A Toyota afirmou que não opera no Irã e que não tinha conhecimento das compras identificadas pela Reuters.
Rotas passam por China, Rússia, Europa e Oriente Médio
Os carregamentos chegaram ao Irã por diferentes rotas. Parte foi transportada por navios de carga pelo Mar Cáspio, a partir da Rússia; outra parcela entrou por caminhões vindos da Ásia Central; e remessas aéreas partiram da China. Os dados foram obtidos, entre outras fontes, pela ImportGenius, plataforma que reúne registros de importação e exportação.
Em 9 de fevereiro de 2026, um navio entregou em Bandar Abbas 93 toneladas de titânio bruto chinês. Segundo especialistas, o metal de alta resistência pode ser usado na construção de estruturas de mísseis e carcaças de motores de foguetes. No mês que antecedeu o início da guerra, navios também transportaram 268 toneladas de nitrocelulose e 276 toneladas de outros produtos químicos originários da China, incluindo substâncias utilizadas em propulsores de foguetes e explosivos.
Em junho de 2026, uma carga de US$ 1,9 milhão em detonadores russos chegou ao país. Foi a quinta remessa semelhante desde o início de 2025, totalizando US$ 7,6 milhões. Os dispositivos podem ser empregados na ativação de explosivos de alta potência usados em ogivas de mísseis e drones.
Também foram identificados equipamentos provenientes da Alemanha e de outros países da União Europeia, incluindo caminhões, componentes de motores de aeronaves e sistemas eletrônicos. Somente os caminhões Iveco representaram US$ 34 milhões em mercadorias registradas como originárias da Alemanha e de outros países europeus.
A União Europeia afirmou que a aplicação das sanções é responsabilidade de seus Estados-membros e que o bloco acompanha as informações sobre o fortalecimento dos programas iranianos de mísseis e drones. Alemanha e Itália não responderam aos pedidos de comentário.
Desde o início da guerra, mercadorias avaliadas em US$ 27 milhões e destinadas às Forças Armadas do Irã foram registradas como provenientes dos Emirados Árabes Unidos. A maior parte chegou por via marítima. A remessa mais recente, de produtos eletrônicos, foi registrada em 27 de junho, nove dias depois de os Estados Unidos anunciarem a suspensão do bloqueio naval. O bloqueio foi retomado em meados de julho.
Os Emirados Árabes Unidos rejeitaram as acusações e afirmaram que elas são “infundadas”. O governo disse manter o compromisso de impedir o uso de seu território para atividades ilegais. China, Rússia, Casa Branca e Comando Central dos Estados Unidos, o CENTCOM, também foram procurados. A chancelaria chinesa afirmou não ter conhecimento da situação descrita e rejeitou tentativas de associar o país às hostilidades regionais.
Pagamentos são feitos sem transferência direta de moeda
De acordo com os dados analisados pela Reuters, 97% das remessas foram liquidadas “sem transferência de moeda”. Em vez de movimentar dinheiro diretamente entre o Irã e os fornecedores, intermediários da diáspora iraniana usaram recursos mantidos em bancos estrangeiros para comprar e enviar as mercadorias.
As agências possuem números governamentais exclusivos de 11 dígitos e aparecem no registro corporativo oficial do Irã. Esses códigos também são repetidos em conhecimentos de embarque, faturas e contas bancárias, permitindo rastrear as operações mesmo quando empresas de fachada são utilizadas.
No final de 2024, 36 dessas agências tinham contas em moeda estrangeira no Banco Sepah com depósitos que somavam US$ 1,2 bilhão. As demais contas reuniam cerca de US$ 1,8 bilhão em moeda local, com saldo médio equivalente a aproximadamente US$ 360 mil por conta.
Noam Binstok, analista sênior da 240 Analytics, identificou as entidades em junho de 2025, ao examinar milhares de páginas de documentos do Banco Sepah obtidas no Telegram e no WikiIran. As agências seguiam um padrão: começavam com “MOD”, ou “VODJA” em persa, eram seguidas por números de cinco ou seis dígitos escritos por extenso e apresentavam a mesma data e endereço de registro.
Segundo Binstok, documentos mais recentes mostraram que as mesmas entidades recebiam recursos da venda clandestina de petróleo e financiavam a aquisição de equipamentos de uso dual. A Reuters passou a mapear a estrutura usando os códigos de identificação fornecidos pela consultoria, dados alfandegários, registros oficiais e documentos de transporte.
As compras da MOD 346428 aumentaram de US$ 442 milhões nos 12 meses encerrados em março de 2023 para US$ 988 milhões no período seguinte, colocando a agência entre os dez maiores importadores do Irã. Após o início da guerra, o valor mensal das importações caiu 47%, para US$ 54 milhões em março, mas voltou a subir para US$ 77 milhões em maio.
Rede também se conecta à repressão interna
Além do abastecimento militar, os documentos indicam conexões entre a rede MOD e estruturas envolvidas na repressão interna. Uma delas é a Fundação para a Preservação de Relíquias e Publicação dos Valores da Defesa Sagrada, responsável por promover a ideologia oficial da República Islâmica e a chamada “cultura da resistência, do sacrifício, da jihad e do martírio”.
Em 2017, a fundação recebeu quatro remessas de equipamentos eletrônicos e unidades de refrigeração. Os documentos vinculavam as cargas ao código da MOD 346428. A organização tem comandantes da Guarda Revolucionária em cada uma das 31 províncias iranianas.
No Khuzestão, entre os dirigentes está o brigadeiro-general Hassan Shahvarpour. Segundo documentos de sanções dos Estados Unidos, tropas sob seu comando mataram ao menos 100 civis em Mahshahr durante os protestos de 2019 contra o aumento dos preços da gasolina. Ativistas afirmaram que as forças cercaram manifestantes com veículos blindados e abriram fogo contra a multidão.
Shahvarpour foi sancionado pelos Estados Unidos em 2020 por supostas violações de direitos humanos. Em 2021, ele teria solicitado 50 bilhões de riais, então equivalentes a mais de US$ 1 milhão pela cotação oficial, para financiar um novo prédio da Guarda Revolucionária no Khuzestão. A conta indicada para o depósito pertencia à MOD 424000.
Ativistas disseram ainda que as tropas sob o comando de Shahvarpour reprimiram novas manifestações no início de 2026. Eles relataram milhares de mortos e dezenas de milhares de prisões em todo o país, além de 46 mortos identificados no Khuzestão, a maioria nos dias 8 e 9 de janeiro.
Imagens divulgadas pela imprensa estatal mostram tropas da Guarda Revolucionária atravessando uma cidade da província em caminhonetes Toyota Tundra brancas, enquanto um dos veículos transportava um drone Shahed.
Para Peter Salisbury, professor assistente adjunto da Universidade Columbia, os dados sugerem um esforço em escala industrial para reconstruir ou ampliar o arsenal iraniano de mísseis e drones. “Esses dados mostram claramente a adaptabilidade do ecossistema iraniano e sua capacidade de encontrar novas rotas”, afirmou.
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos declarou que o governo americano “cortou as linhas de vida econômicas do regime” e que o Irã continua tentando contornar as sanções para financiar seus programas militares. Nenhuma das entidades iranianas contatadas pela Reuters respondeu aos pedidos detalhados de comentário.






