O número de adultos com obesidade acompanhados pela Atenção Primária à Saúde no Brasil mais que triplicou em dez anos. Dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), do Ministério da Saúde, mostram que os registros passaram de 3,09 milhões, em 2016, para 11,12 milhões em 2026, uma alta de 259%.
Os números mais recentes abrangem o período de janeiro a outubro deste ano. Entre os adultos monitorados pelo sistema, 11,12 milhões foram classificados com obesidade e outros 10,76 milhões apresentaram sobrepeso. Juntos, os dois grupos somam 21,88 milhões de pessoas com excesso de peso, o equivalente a 71,5% do total de adultos acompanhados pelo Sisvan.
O sistema reúne informações sobre o estado nutricional de pessoas atendidas na Atenção Primária à Saúde, considerada a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS). Os dados, portanto, refletem o perfil dos adultos acompanhados pelos serviços públicos e não representam necessariamente a situação de toda a população adulta brasileira.
A evolução dos registros também indica que a obesidade passou a ocupar uma parcela maior entre os casos de excesso de peso. Em 2016, a condição correspondia a 25,1% dos registros. O índice subiu para 31,9% em 2022 e chegou a 36,4% em 2026.
Rio Grande do Sul lidera proporção de adultos com obesidade
Em 24 das 27 unidades da Federação, a proporção de adultos com obesidade entre os acompanhados pelo Sisvan é maior do que a de pessoas classificadas com peso adequado. Em 18 estados, ao menos 70% dos adultos monitorados apresentam excesso de peso, considerando os casos de obesidade e sobrepeso.
O Rio Grande do Sul registra a maior proporção de adultos com obesidade entre os acompanhados pelo sistema, com 42,6%. Na sequência aparecem São Paulo, com 40,5%, e o Rio de Janeiro, com 40,1%.
Quando são somados os casos de sobrepeso, o Rio Grande do Sul permanece na primeira posição. No estado, 75,9% dos adultos acompanhados estão acima do peso considerado adequado. O Rio Grande do Norte aparece em segundo lugar, com 75,5%, seguido pelo Amapá, com 74,5%.
Em números absolutos, São Paulo concentra o maior contingente de adultos com obesidade monitorados pelo Sisvan: 1,74 milhão. Minas Gerais ocupa a segunda posição, com 1,16 milhão. O Rio de Janeiro aparece em seguida, com 759,2 mil pessoas, enquanto a Bahia registra 735,3 mil adultos com obesidade acompanhados pelo sistema.
Dados ampliam debate sobre atendimento no SUS
O crescimento dos registros reforça a discussão sobre a capacidade dos serviços de saúde de oferecer ações de prevenção, acompanhamento e tratamento para pessoas com obesidade. O tema foi debatido durante o XVI Congresso Latino-Americano de Obesidade, realizado entre 28 e 31 de outubro, em Salvador.
Durante o evento, o endocrinologista Bruno Halpern, presidente da Federação Mundial da Obesidade e vice-presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), apresentou os primeiros resultados do estudo internacional MAPPS II. A pesquisa analisa como diferentes países estruturam políticas de prevenção e tratamento da obesidade.
Conduzido pela Federação Mundial da Obesidade, o levantamento reúne informações sobre pacientes, profissionais de saúde e sistemas públicos. Entre os problemas identificados estão o financiamento insuficiente, os custos pagos diretamente pelos pacientes, a estrutura inadequada dos serviços e o preconceito relacionado ao peso, inclusive entre profissionais de saúde.
“Um dos principais pontos que vimos até agora é a distância entre o reconhecimento formal da obesidade como doença crônica e a existência de condições efetivas para seu tratamento. Embora a maioria dos participantes tenha indicado que seus países reconhecem a obesidade como doença, isso nem sempre se traduz em financiamento, acesso aos tratamentos ou serviços de saúde preparados para atender essa população”, afirmou Halpern.
Segundo o endocrinologista, o apoio financeiro dos governos ao tratamento recebeu notas entre 1 e 3, em uma escala de 1 a 10. Em muitos países, os próprios pacientes precisam arcar com os custos do atendimento.
“Na maior parte dos países, os pacientes precisam arcar com os custos do próprio tratamento. Essa situação torna o acesso ainda mais difícil em nações de baixa e média renda, onde, muitas vezes, apenas as pessoas com maior poder aquisitivo conseguem se tratar”, disse.
Estudo avalia políticas públicas no Brasil
O MAPPS II também identificou dificuldades para garantir atendimento multidisciplinar. A falta de nutricionistas, psicólogos e fisioterapeutas limita a oferta de acompanhamento por diferentes profissionais. Outro obstáculo apontado é a pouca articulação entre as áreas do governo envolvidas nas políticas relacionadas à obesidade.
Na avaliação de Halpern, as ações de saúde precisam ser articuladas a medidas de educação, alimentação, renda, trabalho e organização das cidades. O tratamento da obesidade, segundo os resultados apresentados, não depende apenas da atuação dos serviços de saúde, mas também da existência de políticas públicas integradas.
O Brasil é o país com o maior número de participantes do MAPPS II e o único das Américas selecionado para uma etapa de investigação aprofundada. A fase busca compreender como estão organizadas as ações de prevenção e tratamento da obesidade, quais são as principais barreiras de acesso e se as políticas públicas atendem às necessidades das pessoas que vivem com a condição.
A pesquisa consulta profissionais de saúde, gestores públicos, pesquisadores, representantes da sociedade civil e pessoas com obesidade. Em junho deste ano, uma discussão realizada em parceria com a Secretaria de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde reuniu representantes desses grupos para tratar dos desafios brasileiros. As consultas qualitativas continuam em andamento.
A Federação Mundial da Obesidade prevê divulgar os resultados globais do estudo em 4 de março de 2027, Dia Mundial da Obesidade. Um relatório específico sobre o Brasil também deverá ser publicado ao longo do próximo ano. Os registros do Sisvan têm frequência de envio semanal.









