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Home Grande BH Belo Horizonte

Dia de Finados expõe a dor de pais que perderam os filhos e enfrentam um luto sem nome

02/11/2026
Em Belo Horizonte
Tempo de leitura:8 minutos de leitura
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Fred Magno/ O Tempo

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O Dia de Finados, celebrado nesta segunda-feira (2/11), é marcado por homenagens e lembranças de pessoas que morreram. Em Belo Horizonte, cerca de 80 mil visitantes são esperados nos quatro cemitérios municipais — Bonfim, Paz, Saudade e Consolação —, segundo estimativa da Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica (FPMZB). Entre eles estão pais e mães que enfrentam uma das perdas consideradas mais difíceis de elaborar: a morte de um filho.

Diferentemente do que ocorre com quem perde os pais ou o companheiro, não existe na língua portuguesa uma palavra específica para definir os pais que enterram os próprios filhos. Para especialistas e familiares, nenhum termo seria capaz de traduzir a dimensão desse sofrimento. A morte, no entanto, não encerra a parentalidade. Quem perdeu um filho continua sendo pai ou mãe, mesmo diante da ausência física.

A perda de Maria Clara alterou para sempre a vida dos pais

Elizangela Franklin, de 50 anos, e Tarcísio Rocha, de 64, conhecem essa realidade. O casal perdeu a filha Maria Clara, que morreu aos 16 anos, em 2021. Para Elizangela, a vida passou a ser dividida entre o período em que a filha estava viva e o tempo posterior à morte.

“A minha vida tem dois momentos: um com Maria viva, em que eu era uma mulher plena, completa, e hoje. Eu tenho uma vida que falta um pedaço de mim, mas eu tenho que seguir. Minha vida vai ser a mesma? Não, nunca mais vai ser a mesma”, afirma.

A adolescência de Maria Clara foi interrompida por um ependimoma, tumor localizado no cerebelo e apontado como comum entre adolescentes. A doença avançou rapidamente. Entre os primeiros exames e a morte da jovem, os pais tiveram apenas 16 dias para lidar com o diagnóstico, a possibilidade de tratamento e a despedida.

Segundo Elizangela, a rapidez dos acontecimentos dificultou a compreensão da doença e da perda. “Deus recolheu minha filha de uma forma que não deu tempo de a gente assimilar a doença, um possível tratamento, nada. Então, assim, foi rompido esse laço da Maria com a gente”, relata.

Mesmo cinco anos e meio depois, a presença de Maria Clara continua sendo percebida pela família. O quarto da jovem permanece preservado, com a cama arrumada e o violino que ela gostava de tocar. A casa também guarda um altar com uma fotografia da estudante sorrindo. Após a cremação, as cinzas foram levadas para o imóvel.

“É como se ela estivesse entre a gente, sabe? É um choque. Então, até hoje a gente está meio sem chão. Já são cinco anos e meio e a presença dela é muito viva. Eu não lembro dela doente, eu lembro dela com os sintomas e pronto”, diz a mãe. A maior saudade, segundo ela, é ouvir a filha chamá-la de mãe.

Católica, Elizangela costuma acender uma vela para Maria Clara no Dia de Finados e participar de missas em homenagem aos mortos. A fé se tornou uma forma de atravessar a data e manter a filha presente na rotina. “A gente reza especialmente pelos falecidos, no caso a Maria Clara. Eu rezo todos os dias para ela, mas é um dia especial que a gente pede para que Deus interceda pela misericórdia, para que todos estejam em paz”, explica.

Para Tarcísio, a ausência também se manifesta em detalhes cotidianos. Pai de Jaqueline, Lucas e Maria Clara, ele afirma sentir falta do cheiro, do sorriso, da voz e do carinho da filha. “Não me esqueço dela em nenhum momento”, conta.

A paternidade era um antigo sonho de Tarcísio. A chegada de Jaqueline foi acompanhada pelo medo de não conseguir oferecer à filha tudo de que ela precisaria e pelas dificuldades comuns aos primeiros dias de um pai. Depois nasceu Lucas, chamado por ele de “o cara da paz”, apaixonado por futebol e pai de Yuri, o “netão do coração” do avô. Maria Clara foi a caçula e recebeu o apelido de “bichinho de goiaba”, em referência à pele muito clara.

Antes da morte da filha, Tarcísio já havia perdido a mãe, quando tinha 18 anos, o pai, aos 31, e um amigo próximo, padrinho de Maria Clara. Nenhuma dessas experiências, porém, o preparou para a morte da caçula. “A morte dela foi devastadora. Alguns familiares e amigos até se afastaram por não conseguir presenciar nossa dor. Hoje, sou um homem menos alegre”, afirma.

Ao falar sobre a forma como gostaria que Maria Clara fosse lembrada, o pai cita características que permanecem em sua memória: alegria, dedicação aos estudos, talento, honestidade, lealdade, amor e bom humor. “Maria Clara foi um presente de Deus para nós”, diz. “Ela passou por este mundo como uma estrela cadente, iluminando nossas vidas, e se foi deixando um rastro de luz em minha vida, que só se apagará quando eu me for.”

Tarcísio tenta se apoiar na gratidão pelos 16 anos e 16 dias de convivência com a filha. “Para não enlouquecer ou desistir da vida, procuro me agarrar ao fato de ter sido agraciado por Deus com o dom da paternidade por três vezes”, afirma.

O luto dos pais é marcado por culpa e falta de compreensão

Para o psicólogo, arte-educador e pós-graduando em Arteterapia Rodney Nicomedes, a morte de um filho rompe com aquilo que muitas pessoas consideram a ordem natural da vida. O sofrimento, segundo ele, pode ser ainda mais intenso porque os filhos frequentemente representam a continuidade dos projetos, dos valores e das expectativas dos pais.

“O luto pela perda de um vínculo afetivo ou de um bem material pode ser menos doloroso que a perda de um filho. É mais comum a pessoa aceitar abrir mão de um relacionamento ou de um bem material do que de um filho”, explica.

Além da saudade, os pais podem enfrentar sentimentos de culpa. Conforme Nicomedes, muitos passam a se questionar se poderiam ter evitado a morte ou protegido melhor a criança. “A dor chega como se o pai ou a mãe tivesse, de alguma forma, entregue o próprio filho para a morte”, relata.

Frases usadas com a intenção de consolar também podem aumentar o sofrimento. Expressões como “o tempo cura tudo” e “logo você tem outro filho” são consideradas violentas porque sugerem que a perda pode ser superada rapidamente ou que um filho poderia substituir outro.

O acolhimento, portanto, precisa ocorrer sem julgamentos e sem a tentativa de oferecer respostas simples para uma dor complexa. Familiares, amigos e colegas de trabalho devem oferecer escuta, companhia e presença. Quando necessário, o acompanhamento psicológico pode ajudar os pais a atravessar o luto.

“Amigos, familiares e colegas de trabalho precisam oferecer uma escuta empática, companhia e conforto, demonstrando presença sem julgamentos”, orienta Nicomedes. “Por outro lado, é fundamental evitar conselhos vazios, não culpabilizar os pais pela perda, não se distanciar por desconforto e banir a ideia de que a dor passa com uma nova gestação. Apenas estar presente já é um ato de cuidado”, afirma.

Rafael acompanhou o filho durante dez anos de cuidados

O ferroviário Rafael de Paula Dias, de 43 anos, também precisou lidar com a morte de um filho. Casado com Camila Fernandes Silva, ele é pai de Camilly Victoria Corrêa Dias, de 24 anos, Theo Fernandes Dias, de dois anos e meio, e Davi Lucca Fernandes Dias, que morreu aos 10 anos, em 24 de julho de 2024.

Davi tinha deficiência e, segundo o pai, recebeu o mesmo amor dedicado aos irmãos. Rafael afirma que a paternidade lhe apresentou sentimentos que ainda não conhecia, como o amor profundo e o medo de perder ou não conseguir proteger os filhos.

“No dia em que me tornei pai conheci o verdadeiro amor, aquele que lhe dá a coragem de dar a vida. Conheci também o medo: medo de um dia faltar algo para meus filhos, mas também a coragem de enfrentar qualquer coisa para garantir que isso nunca acontecesse. Foi a experiência mais incrível da minha vida”, lembra.

Durante dez anos, a rotina da família foi organizada em torno dos cuidados permanentes com Davi. O menino passou por diversas internações por pneumonia e, em determinado momento, precisou ser submetido a uma cirurgia para a colocação de um dreno no pulmão. Depois do procedimento, teve seis paradas cardíacas.

“Foram dez anos de cuidado genuíno, 24 horas por dia, para garantir mais um dia de vida. Foram várias internações por pneumonia, até que chegou o momento em que decidiram colocar um dreno no pulmão. Depois da cirurgia ele teve seis paradas cardíacas e, na sexta, precisei tomar a decisão de não insistir mais”, conta Rafael.

O pai permaneceu ao lado de Davi até o último momento. “Meus olhos estavam fixos nos dele até o último suspiro, até perceber que ele não estava mais conosco. Estivemos juntos todos os dias até o último momento. Essa imagem nunca saiu da minha cabeça”, relembra.

Depois da morte, a filha mais velha ficou responsável pela documentação. “Minha filha cuidou de toda a papelada, diferente do dia em que ele nasceu, quando fui eu quem o registrou com a maior alegria”, diz Rafael.

O pai encontrou apoio no acompanhamento psicológico. “Faço acompanhamento psicológico somente para não surtar. A dor é indescritível. Descobri que não somos nada e que nada levaremos daqui, mas o que podemos fazer uns pelos outros, isso sim é o que ecoará pela eternidade”, afirma.

Embora defina o luto como permanente, Rafael diz que não abriria mão da experiência de ter sido pai de Davi. “O luto é eterno, mas garanto que, se fosse necessário, faria tudo de novo, porque foi uma honra tê-lo na minha vida e poder dizer que ele é meu filho”, conclui.

Homens enfrentam barreiras culturais para buscar ajuda

A dificuldade de lidar com o sofrimento pode ser maior entre os homens, devido ao machismo estrutural e à expectativa de que eles permaneçam fortes para sustentar emocionalmente a família. Segundo Rodney Nicomedes, muitos pais chegam ao consultório sufocados pela culpa e pela obrigação de se apresentar como um pilar inabalável.

A Rede de Apoio a Perdas Irreparáveis (Rede API), criada em outubro de 1998, acolhe pessoas enlutadas em Belo Horizonte há quase três décadas. Dos mais de 12 mil atendimentos realizados pela instituição, cerca de 70% foram destinados a mulheres e 30% a homens.

Para a psicóloga clínica Gláucia Rezende Tavares, cofundadora da Rede API, a cultura ainda dificulta a expressão das emoções masculinas. “Ainda vivemos em uma cultura onde as emoções [maternas e paternas] não são legitimadas. Do homem se exige silêncio, o que pode gerar impaciência com a dor da companheira e causar o distanciamento do casal”, analisa.

De acordo com Gláucia, muitos homens chegam aos grupos de apoio incentivados pelas próprias companheiras. Quando conseguem falar sobre o que sentem, demonstram disposição para integrar a experiência da perda à própria história. Os encontros da Rede API são realizados no bairro Santo Antônio, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, com cobrança de uma taxa simbólica de R$ 40 para ajudar no aluguel do espaço e no lanche de confraternização.

Tarcísio, pai de Maria Clara, encontrou na fé sua principal forma de sustentação. Ele compara o luto a uma panela de pressão retirada do fogo: a intensidade diminui com o tempo, mas o conteúdo permanece. Para Elizangela, a certidão de óbito da filha representa uma ruptura tão profunda que se aproxima da própria morte. “A certidão de óbito do filho é como se fosse a nossa própria certidão de óbito também”, explica.

Vera enfrenta o primeiro Dia de Finados sem Abílio

A reportagem também acompanhou a história de Vera Cardoso, de 67 anos, e do filho Abílio de Jesus, de 20. Em matéria publicada no Dia das Mães, em 10 de maio deste ano, o foco foi o envelhecimento de mães cuidadoras e de filhos com deficiência. A questão central era quem cuidaria deles quando essas mulheres não pudessem mais fazê-lo.

Pouco mais de dois meses depois da publicação, Abílio morreu, em 16 de julho, data dedicada a Nossa Senhora do Carmo. O sepultamento ocorreu em 18 de julho, no Cemitério da Paz, em Belo Horizonte. Vera vive agora o primeiro Dia de Finados desde a morte do caçula.

Antes de adotar Abílio, Vera já era mãe de João Alves, hoje com 32 anos. Ao recordar o primeiro encontro com o menino, ela contou que havia sido alertada sobre a possibilidade de ele ter pouco tempo de vida. Ainda assim, decidiu acolhê-lo pelo período que pudessem compartilhar.

“Quando a gente conheceu o Abílio, ele era a criança do dia seguinte. Diziam para nós: ‘Ele só vai viver mais um dia’. E eu respondi para o juiz, para a assistente social e para a psicóloga: ‘Então esse vai ser o dia mais feliz da vida dele’. E está aí ele, vivendo 20 anos de dias felizes”, afirmou Vera na ocasião.

Estagiária sob supervisão de Tatiana Lagôa.

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