O programa “Record Kids: Desenhos Bíblicos”, exibido pela Record há mais de duas décadas, deixou de ser classificado como “Livre” e passou a ser considerado “não recomendado para menores de 12 anos”. A alteração foi determinada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública por meio da Portaria nº 2.272/2026, publicada no Diário Oficial da União em 29 de outubro.
A mudança alcança o bloco de animações exibido tradicionalmente nas manhãs de domingo da emissora e reacendeu o debate sobre os critérios utilizados na classificação indicativa de conteúdos voltados ao público infantil, especialmente aqueles baseados em temas e narrativas religiosas.
Segundo a portaria, a elevação da faixa etária foi fundamentada na identificação de uma ou mais das quatro categorias previstas nas diretrizes de classificação indicativa e capazes de justificar um reenquadramento. O documento, no entanto, não apresenta a relação dos episódios analisados nem descreve detalhadamente as cenas que teriam motivado a decisão administrativa.
A ausência dessas informações passou a integrar a discussão em torno da medida. Embora o Ministério da Justiça tenha indicado a existência de elementos suficientes para alterar a classificação, o texto publicado no Diário Oficial da União não esclarece quais situações específicas foram consideradas na avaliação dos desenhos bíblicos.
O presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, criticou a decisão. Em uma publicação nas redes sociais, o deputado questionou os critérios adotados pelo governo para elevar a classificação etária do programa e argumentou que a representação de conflitos e da figura do mal em histórias com finalidade educativa não deveria ser analisada sem considerar o contexto apresentado pelas produções.
“Retratar o mal para ensinar a combatê-lo é promover a violência?”, escreveu Marcos Pereira. O parlamentar também citou o próprio guia de classificação indicativa do Ministério da Justiça, segundo o qual a presença de conteúdos positivos e a condenação da violência podem ser consideradas fatores atenuantes na definição da faixa etária.
“O próprio guia do Ministério reconhece conteúdos positivos e a condenação da violência como atenuantes possíveis numa classificação. Qual peso esses critérios tiveram na decisão?”, questionou o presidente do Republicanos. Ele defendeu a revisão do reenquadramento e afirmou que os ensinamentos apresentados pelas animações deveriam ser levados em conta na análise.
Com a nova classificação, a recomendação para a exibição do conteúdo na televisão aberta passa a ser a partir das 20h. A indicação, entretanto, tem caráter orientativo para pais e responsáveis e não representa uma proibição para que crianças menores de 12 anos assistam ao programa.
O bloco “Record Kids” estreou na Record em 2003 e reúne animações inspiradas em personagens e relatos do texto sagrado. Mantido tradicionalmente aos domingos, a partir das 9h, o programa se consolidou como um dos principais conteúdos infantis da emissora ao longo de mais de 20 anos.
A alteração cria uma incompatibilidade entre o novo horário recomendado e a faixa tradicional de exibição do programa, mas a matéria original não informa se a Record decidiu modificar a programação ou adotar alguma medida específica após a publicação da portaria.
O debate permanece concentrado nos critérios técnicos utilizados pelo Ministério da Justiça e na falta de divulgação de pareceres que detalhem os episódios e as cenas considerados na decisão. A reportagem entrou em contato com o Ministério da Justiça e Segurança Pública e com a Record TV, mas não havia recebido resposta até a última atualização. O espaço permanece aberto para manifestação.








