Um touro e um jumento macho mantêm na Etiópia uma relação incomum, marcada por proximidade constante, trocas de carinho e episódios de montagem. O comportamento chamou a atenção de pesquisadores porque as interações entre os dois não parecem se limitar a encontros sexuais ocasionais: os animais também permanecem juntos, trocam lambidas e esfregam os corpos, indicando a existência de um vínculo social seletivo. O caso foi analisado em um estudo publicado na revista científica Current Biology nesta segunda-feira (2).
A observação dos dois animais levanta questões sobre as diferentes funções que o comportamento sexual pode desempenhar na natureza. Embora a reprodução seja uma de suas principais funções evolutivas, ela não explica necessariamente todas as interações sexuais registradas entre animais. Em algumas espécies, esse comportamento também pode contribuir para a formação, a manutenção e o fortalecimento de relações sociais.
Encontro foi descoberto durante pesquisa sobre macacos
O caso foi identificado por acaso, enquanto pesquisadores de diferentes instituições europeias realizavam um estudo sobre macacos geladas na Etiópia. Durante uma pausa para o almoço, um dos estudantes percebeu, à distância, que um touro montava um jumento. Inicialmente, os demais integrantes da equipe duvidaram do relato, mas novas observações mostraram que a cena não era isolada.
Os pesquisadores passaram a acompanhar o comportamento dos dois animais, que pertencem a donos diferentes. Por essa razão, eles são separados durante a noite. Durante o dia, no entanto, os rebanhos utilizam os mesmos pastos, o que permite que o touro e o jumento passem boa parte do tempo próximos.
A relação chamou atenção também pela preferência demonstrada pelos dois. Mesmo quando havia outros animais no mesmo pasto, Aquiles, o touro, e Pátroclo, o jumento, permaneciam próximos um do outro. Os nomes foram escolhidos em referência a dois heróis gregos da Guerra de Troia, cuja forte ligação é interpretada por alguns como um relacionamento homossexual.
“As interações sexuais entre Aquiles, o touro, e Pátroclo, o jumento, não foram eventos isolados. O que realmente nos chamou a atenção foi que essas interações estavam inseridas em uma relação social muito seletiva e consistente entre os dois indivíduos”, afirmou Elisabetta Palagi, da Universidade de Pisa, na Itália, em entrevista ao site IFLScience.
Pesquisadores registraram 51 episódios de montagem
Durante o período de observação, a equipe registrou 51 episódios de montagem de Aquiles sobre Pátroclo. Os momentos de contato sexual eram acompanhados por lambidas, esfregões e aproximações afetuosas antes e depois das montas. Segundo os pesquisadores, esse padrão sugere que a interação entre os animais não terminava necessariamente após o comportamento sexual.
A hipótese de que as montagens fossem apenas uma demonstração de dominância do touro também não pareceu compatível com o conjunto de observações. Embora Aquiles procurasse Pátroclo com frequência, ele também cortejou algumas fêmeas do gado e tentou se aproximar de outros jumentos.
Essas tentativas, porém, não tiveram o mesmo resultado. Em uma ocasião em que Aquiles conseguiu montar outro jumento, Pátroclo se aproximou e recuperou a atenção do companheiro. Em algumas situações, o jumento chegou a apresentar comportamento agressivo, o que reforçou a percepção de que havia uma preferência específica pela companhia do touro.
Distância evolutiva impede reprodução entre as espécies
O vínculo entre os dois animais também se destaca pela distância evolutiva entre suas espécies. O gado pertence à família Bovidae, enquanto os jumentos fazem parte da família Equidae. As linhagens que deram origem a esses grupos estão separadas por dezenas de milhões de anos. Portanto, mesmo que um dos animais fosse fêmea, não haveria possibilidade de reprodução entre eles.
Para avaliar se a proximidade ocorria apenas pela falta de outras opções de companhia, os pesquisadores acompanharam os animais em situações diferentes. A equipe fez observações durante quatro dias em que Aquiles e Pátroclo estavam na mesma área e por outros quatro dias em que apenas um deles estava presente.
Os registros indicaram que a associação não acontecia simplesmente porque não havia outros animais disponíveis. “Esse comportamento sexual incomum fazia parte de uma relação social mais ampla seletiva”, explicou Martina Francesconi, pesquisadora da Universidade de Pisa.
De acordo com os cientistas, as interações sexuais podem ter ajudado a prolongar o contato entre os animais e a fortalecer o vínculo construído entre eles. O padrão lembra comportamentos observados em outras espécies, como os golfinhos, nas quais o sexo também pode desempenhar um papel na organização das relações sociais.
Apesar das observações, os pesquisadores ainda não sabem exatamente como a relação se desenvolveu. Não está claro se o comportamento sexual surgiu depois que os animais estabeleceram um vínculo afetivo ou se as próprias interações sexuais contribuíram para formar e consolidar essa proximidade.








