Uma equipe de pesquisadores registrou, na Etiópia, interações sexuais repetidas entre um touro e um jumento, ambos machos e de espécies diferentes. O touro, chamado Aquiles, montou o jumento, identificado como Pátroclo, em 51 ocasiões. Em 34 desses episódios, houve penetração peniana. O caso pode representar o primeiro registro documentado de comportamento homossexual entre animais de espécies distintas.
A observação ocorreu por acaso durante uma expedição voltada ao estudo de macacos. Os pesquisadores acompanhavam animais em uma área de pastagem quando perceberam a interação incomum entre Aquiles e Pátroclo. O comportamento foi descrito em um estudo publicado na revista científica Current Biology na segunda-feira (2/11).
Embora relações homossexuais entre animais do mesmo sexo sejam observadas com relativa frequência na natureza, manifestações desse tipo entre espécies diferentes são consideradas raras. Por isso, o vínculo entre o touro e o jumento chamou a atenção dos cientistas, especialmente pela repetição dos episódios e pela forma como os dois animais interagiam.
Segundo os registros, Aquiles também tentou montar outros jumentos. No entanto, esses animais reagiram de maneira diferente de Pátroclo: apresentaram comportamento de esquiva e chegaram a exibir expressões faciais interpretadas pelos pesquisadores como ameaçadoras. Pátroclo, ao contrário, demonstrou permissividade contínua diante das investidas do touro.
A relação parecia envolver ainda uma dinâmica de proximidade entre os dois. Quando Aquiles tentava montar outro jumento, Pátroclo aparentemente se aproximava para interromper a situação e dificultar o contato do touro com o outro animal. Esse comportamento foi considerado um dos elementos que distinguem a interação entre os dois dos demais episódios observados durante a expedição.
Os pesquisadores também documentaram momentos em que Aquiles e Pátroclo lambiam um ao outro e esfregavam os focinhos. Essas ações foram interpretadas como possíveis demonstrações de afeto ou de proximidade. Em condições habituais, comportamentos desse tipo podem ocorrer antes da monta e contribuir para facilitar a interação sexual.
Os autores, porém, ressaltam que a interpretação não é simples. Para Elisabetta Palagi, uma das autoras do estudo, o comportamento animal não segue necessariamente os limites estabelecidos pelos seres humanos. Em entrevista ao portal ScienceAlert, ela afirmou que a natureza não se apresenta de forma rígida ou dividida em categorias absolutas, mas reúne diferentes formas de interação.
No artigo, os cientistas avaliam que as interações entre Aquiles e Pátroclo eram repetidas, recíprocas e marcadas por afiliação mútua. Por esse motivo, elas podem indicar a qualidade do relacionamento entre os animais. A análise também considera que esses comportamentos não devem ser atribuídos exclusivamente à excitação sexual, pois poderiam prolongar a interação social entre os dois para além do ato de monta.
Apesar dos registros, os pesquisadores afirmam que ainda não é possível concluir que Aquiles e Pátroclo mantinham um relacionamento amoroso, especialmente porque essa interpretação pode refletir conceitos humanos aplicados ao comportamento animal. A separação dos dois também impede, neste momento, uma avaliação contínua da relação.
O próximo passo previsto pelos cientistas é realizar novas observações para verificar se o comportamento se mantém caso Aquiles e Pátroclo voltem a ter contato. A equipe também pretende investigar se interações semelhantes entre animais de espécies diferentes ocorrem com maior frequência na natureza do que os registros disponíveis atualmente indicam.









