A Polícia Civil de Minas Gerais instaurou um inquérito para investigar denúncias de agressões verbais, injúria racial e intolerância religiosa contra uma adolescente de 13 anos, em Belo Horizonte. Três jovens são apontados como envolvidos no caso, entre eles um colega de sala da vítima. Segundo a família, as mensagens foram enviadas depois que a adolescente publicou nas redes sociais uma manifestação política relacionada ao resultado do segundo turno da eleição para a Presidência da República.
As mensagens e os áudios encaminhados à jovem continham xingamentos, ofensas raciais, referências pejorativas à religião de matriz africana e insinuações de violência sexual. Entre os termos atribuídos aos suspeitos estão “pobre desgraçada”, “filha de Exu”, “arrombada” e menções aos pais da adolescente como “escravizado” e “piranha”.
Em uma das mensagens, um dos jovens teria afirmado: “Eu moro em Alphaville. Minha casa vale R$ 10 milhões, vale mais que sua alma inteira”. O conteúdo é analisado pelos investigadores como parte das agressões denunciadas pela família.
A vítima e um dos adolescentes apontados no caso estudam no Colégio Claretiano, no bairro Lourdes, na região Centro-Sul de Belo Horizonte. Como os envolvidos são menores de idade, os nomes não foram divulgados. Desde o episódio, registrado em 25 de outubro, a adolescente deixou de frequentar as aulas. Familiares afirmam que ela está abalada e teme sofrer novas agressões.
De acordo com o advogado da família, Victor Alves, a jovem recebeu inicialmente mensagens e áudios de um colega de sala. Em um dos áudios, ao qual a reportagem de O TEMPO teve acesso, o rapaz teria usado palavrões, ofensas políticas, insultos raciais e referência à religião da adolescente. “Vai tomar no seu c, você e esse seu partido de lixo aí, sua vagab#%, filha de Exu”, disse o suspeito, conforme o conteúdo apresentado.
Depois, um segundo adolescente, que, segundo os familiares, não estuda na mesma escola, também teria enviado mensagens com insultos e declarações de intolerância religiosa. Em um dos textos, ele teria feito referências depreciativas à condição financeira da família, à moradia e aos pais da vítima, além de utilizar termos racistas e ofensivos.
O mesmo adolescente também teria enviado outra mensagem com novas ofensas políticas, xingamentos e insinuações de violência sexual. O material foi entregue à Polícia Civil e deverá ser submetido às diligências previstas na investigação.
A família procurou a corporação e registrou uma denúncia criminal contra os adolescentes. Em nota, a Polícia Civil informou que o caso é apurado pela Delegacia Especializada em Investigação de Crimes de Racismo, Xenofobia, LGBTfobia e Intolerâncias, em Belo Horizonte.
Segundo Victor Alves, ele se reuniu com representantes do Colégio Claretiano na manhã de terça-feira (03/11) para explicar a situação. O advogado afirmou que essa não seria a primeira vez que a adolescente teria sido alvo de injúria racial por parte de colegas. Conforme Alves, a escola se colocou à disposição para apoiar a vítima e colaborar com as investigações no momento adequado.
O advogado também relatou que a saúde mental da adolescente está bastante fragilizada e que ela tem medo de ser agredida pelos envolvidos. Após a repercussão do caso, o segundo jovem apontado nas denúncias teria enviado uma mensagem pedindo desculpas. Ainda segundo Alves, ele afirmou que “não foi criado dessa maneira”.
A família pretende pedir novas diligências, incluindo o depoimento dos menores e a perícia nos aparelhos celulares. O advogado informou ainda que uma adolescente que teria participado das agressões ainda não foi identificada. Os familiares também buscam a responsabilização dos adolescentes suspeitos e de seus pais, conforme as medidas cabíveis.
Em nota, o Colégio Claretiano declarou que analisa o caso para definir as providências necessárias. A instituição afirmou não compactuar com racismo, discriminação, intolerância religiosa, violência ou constrangimento e reiterou o compromisso com um ambiente escolar seguro, inclusivo e respeitoso.
A escola informou que está verificando as informações recebidas e adotando os procedimentos internos pertinentes. Como o caso envolve menores de idade e dados protegidos por sigilo e pela legislação de proteção de dados, o colégio disse que não divulgará nomes, idades, turmas, mensagens, áudios, identidade dos supostos envolvidos ou medidas individualizadas.
A instituição também afirmou que, neste momento, não pode confirmar ou comentar a caracterização jurídica dos fatos, a data específica da ocorrência ou eventuais responsabilidades individuais. A família de um dos adolescentes foi procurada para se manifestar, mas não havia respondido até a publicação. O espaço permanece aberto para posicionamento.







