O Hospital de Pronto-Socorro João XXIII, em Belo Horizonte, enfrenta redução nos estoques de medicamentos e materiais essenciais enquanto atende pacientes acima da capacidade da estrutura física. Servidores relatam falta de seringas, mangueiras de aspiração, frascos coletores e antibióticos usados contra infecções causadas por bactérias super-resistentes. A unidade recebe pacientes de diferentes regiões de Minas Gerais e tem acomodado pessoas nos corredores.
Referência nacional no atendimento a politraumatizados e considerado um dos maiores prontos-socorros da América Latina, o João XXIII opera como hospital de porta aberta. Isso significa que a unidade recebe casos de urgência e emergência, inclusive situações que não conseguem ser solucionadas em outros serviços de saúde. Com a demanda mantida e o abastecimento comprometido, médicos, enfermeiros e farmacêuticos precisam administrar os itens disponíveis para garantir a continuidade dos atendimentos.
Dados abertos de internações hospitalares mostram que o hospital realizou 10.485 atendimentos entre janeiro e setembro de 2026. O levantamento reúne os pacientes assistidos no pronto-socorro, no bloco cirúrgico, na unidade destinada a queimados e nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) adulta e pediátrica. O volume equivale a 21% de todos os atendimentos registrados pelas unidades sob administração da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig).
Para Fausto dos Santos, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz Minas) e ex-secretário de Estado de Saúde de Minas Gerais, o papel do João XXIII é estratégico para além da capital. Segundo ele, o hospital é o principal serviço de urgência e o maior centro estadual de referência em trauma, atendendo Belo Horizonte, a Região Metropolitana e outras cidades mineiras.
O pesquisador afirma ainda que a unidade é parte central da rede de urgência por concentrar ocorrências que dependem de recursos especializados. Na avaliação de Fausto dos Santos, o funcionamento do João XXIII é fundamental para a organização do sistema de saúde de Minas Gerais.
Antibiótico de alto custo aparece entre os itens com estoque reduzido
Entre os produtos citados pelos funcionários está o Torgena, antibiótico empregado no tratamento de infecções provocadas por bactérias super-resistentes. Um servidor ouvido pela reportagem, cuja identidade foi preservada, informou que o medicamento é utilizado em diferentes tipos de trauma e em casos de grandes lesões. O preço do remédio varia de R$ 8 mil a R$ 16 mil.
Esse funcionário alertou que a indisponibilidade do antibiótico pode provocar complicações graves, como amputações, sepse e até morte. Diante da quantidade limitada, médicos e profissionais da farmácia estariam avaliando conjuntamente quais tratamentos devem ser iniciados ou mantidos.
Outro trabalhador relatou que, depois de o médico diagnosticar o paciente e prescrever o medicamento, a equipe da farmácia nem sempre consegue definir como atender à prescrição diante da falta do produto. Segundo ele, há casos em que os profissionais precisam considerar a interrupção do tratamento de uma pessoa para iniciar o de outra. O servidor afirmou que não se pode deixar de oferecer um tratamento porque a unidade não adquiriu um item que deveria estar disponível no estoque.
Escassez de materiais interfere na rotina cirúrgica
As denúncias também envolvem mangueiras de aspiração, usadas durante cirurgias para remover sangue e outros líquidos acumulados na região operada. O material contribui para manter o campo cirúrgico limpo e permite maior precisão durante o procedimento.
Uma servidora contou que, em um feriado recente, o plantão terminou com exatamente o número de mangueiras necessário para atender à demanda. Ela questionou como um hospital desse porte poderia operar em condições semelhantes.
Também foram relatados problemas com os frascos coletores, que armazenam secreções retiradas durante as cirurgias. Como alternativa, a equipe estaria recorrendo a recipientes de vidro, que precisam passar por esterilização e, conforme a servidora, deixaram de ser usados normalmente na rotina.
A falta de seringas é outra queixa dos funcionários. O material é indispensável tanto para aplicar medicamentos quanto para medir corretamente as doses. Um servidor afirmou que não há unidades suficientes de nenhum tamanho e que o hospital depende de empréstimos, situação classificada por ele como uma das mais graves enfrentadas pela equipe.
Os trabalhadores também descrevem casos em que existe a seringa, mas não há o medicamento necessário, ou em que o remédio está disponível, mas falta o material para administrá-lo. Para eles, é especialmente preocupante que um hospital de porta aberta e de relevância estadual e nacional precise recorrer a empréstimos para manter itens básicos.
Encerramento do HMAL ampliou a demanda sobre o João XXIII
O João XXIII atende usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) e pacientes com planos de saúde. Em ocorrências de extrema urgência, como acidentes e traumas, a unidade também presta atendimento a pessoas que chegam sem identificação.
Na avaliação dos servidores, a pressão sobre os estoques e sobre a capacidade física do hospital cresceu depois do fechamento do Hospital Maria Amélia Lins (HMAL), em dezembro de 2024. A unidade era referência em cirurgias ortopédicas e traumatológicas e funcionava como retaguarda do João XXIII, com uma média de 200 procedimentos realizados por mês.
Com o encerramento das atividades do HMAL, as cirurgias passaram a ser encaminhadas ao João XXIII. Um servidor questionou a avaliação de que o hospital teria condições de absorver a demanda e associou a sobrecarga à presença de pacientes nos corredores.
Segundo os trabalhadores, a superlotação eleva o risco de infecções e afeta a dignidade dos pacientes. Outro funcionário disse que a quantidade de pessoas e macas é tão grande que dificulta a circulação das equipes. Ele citou o risco de acidentes caso seja necessário deslocar rapidamente uma maca pelos corredores.
A reportagem procurou o governo de Minas Gerais, a Fhemig e o Ministério da Saúde para obter posicionamento sobre as denúncias, os custos mensais do Hospital João XXIII e os investimentos previstos para melhorar a unidade. Até a publicação, não havia retorno das instituições.








