O aumento de casos de violência contra mulheres acompanhados durante os plantões judiciais levou o juiz Pedro Paulo Oliveira, titular da 5ª Vara Cível de Anápolis, na região central de Goiás, a cobrar uma resposta coordenada das instituições públicas. Em vídeo publicado nas redes sociais, o magistrado afirmou que o cenário é “triste e preocupante” e destacou que a prevenção e o combate às agressões exigem a participação conjunta do Judiciário, do Ministério Público, das polícias e dos órgãos públicos das esferas federal, estadual e municipal.
De acordo com o juiz, a gravidade do problema se torna mais evidente nos períodos em que ele está de plantão. Nesses momentos, Oliveira acompanha ocorrências envolvendo diferentes modalidades de violência contra mulheres, incluindo agressões físicas, emocionais e financeiras. A repetição dos casos, segundo ele, tem chamado a atenção pela frequência e pela intensidade das situações analisadas.
“É assustador ver que todas as vezes que eu estou de plantão há um número crescente de violência contra a mulher”, declarou o magistrado. Ele também lamentou que muitas vítimas continuem submetidas a ameaças, humilhações e agressões. Em circunstâncias extremas, observou, a violência resulta na morte das mulheres.
Para Pedro Paulo Oliveira, o enfrentamento da violência de gênero não pode ficar concentrado em uma única instituição. Na avaliação do juiz, a atuação integrada entre os órgãos responsáveis pela Justiça, segurança pública e proteção social é necessária tanto para impedir novas agressões quanto para garantir atendimento e segurança às vítimas.
O magistrado também defendeu a conscientização dos homens como parte das estratégias de prevenção. Durante a manifestação, reconheceu que há registros de agressões cometidas por mulheres contra homens, mas ressaltou que a maior parte dos episódios de violência é praticada por homens contra mulheres.
Ao abordar a necessidade de uma resposta mais efetiva, Oliveira afirmou que a indignação diante dos casos precisa ultrapassar o discurso. “Que a nossa indignação não fique apenas nas palavras, mas se transforme em atitudes”, pediu.
Registros de tentativas de feminicídio aumentaram 65,1%
Dados do Observatório da Secretaria de Segurança Pública de Goiás mostram que a preocupação apresentada pelo juiz acompanha uma tendência de crescimento em diferentes indicadores de violência contra as mulheres no estado. O número de tentativas de feminicídio passou de 129, em 2020, para 213, em 2025. A variação representa aumento de 65,1% no período.
Os feminicídios consumados também registraram alta. Foram contabilizados 44 casos em 2020 e 59 em 2025. Outro indicador que avançou foi o de descumprimento de medidas protetivas, que subiu de 1.598 ocorrências para 4.609 no mesmo intervalo.
As medidas protetivas são determinações judiciais adotadas para resguardar mulheres em situação de violência. Elas podem estabelecer restrições para impedir a aproximação do agressor e reduzir o risco de novos ataques. O crescimento dos registros de descumprimento indica que essas ordens não são respeitadas em parte dos casos, o que amplia a vulnerabilidade das vítimas.
O levantamento da Secretaria de Segurança Pública também aponta que 73% dos feminicídios registrados em Goiás em 2025 ocorreram dentro das residências das vítimas. O percentual evidencia a importância do ambiente doméstico na análise da violência contra as mulheres e reforça a necessidade de medidas capazes de interromper ciclos de agressão antes que eles evoluam para crimes mais graves.
Apesar de os números estaduais dimensionarem a extensão do problema em Goiás, os dados não permitem afirmar, isoladamente, como evoluíram as ocorrências especificamente em Anápolis, município onde Pedro Paulo Oliveira exerce a magistratura.
Estado já supera em 2026 total de feminicídios registrados no ano anterior
No início deste mês, duas mulheres foram assassinadas em Goiás em um intervalo inferior a 24 horas, durante o último fim de semana. Com esses crimes, o estado chegou a 62 feminicídios em 2026, número superior aos 60 casos registrados durante todo o ano de 2025.
A combinação entre o relato do juiz e os indicadores oficiais reforça a necessidade de ações articuladas entre os órgãos de segurança pública, o sistema de Justiça e as estruturas de proteção social. A resposta defendida inclui medidas de prevenção, responsabilização dos autores e mecanismos capazes de proteger as mulheres que já estão sob ameaça ou foram vítimas de agressão.









