O governo brasileiro monitora a crise política e econômica no Paraguai, mas considera que os acontecimentos devem ser conduzidos pelas próprias instituições paraguaias. Até o momento, o Itamaraty não prevê uma manifestação oficial sobre o caso e mantém uma postura de cautela, aguardando a evolução da instabilidade antes de definir eventual posicionamento diplomático.
A crise se intensificou após a liquidação do Ueno Bank, uma das principais instituições financeiras do Paraguai. A decisão foi tomada na terça-feira (3/11) pelo Banco Central do Paraguai (BCP), que classificou o banco como insolvente. Na prática, a avaliação da autoridade monetária foi de que a instituição não tinha condições de honrar seus compromissos financeiros.
O colapso da instituição provocou consequências também na estrutura do governo paraguaio. O presidente Santiago Peña anunciou a renúncia na tarde desta quinta-feira (5/11), em meio ao avanço de um pedido de impeachment no Congresso. A saída ainda não é definitiva: os parlamentares precisam analisar e votar a renúncia, enquanto o processo de impedimento continua em tramitação.
Além de Peña, o presidente e dois diretores do Banco Central do Paraguai deixaram os cargos durante o agravamento da crise. Carlos Carvallo renunciou à presidência da autoridade monetária. A troca no comando do banco central ocorre paralelamente às apurações sobre as circunstâncias que levaram à liquidação do Ueno Bank e sobre possíveis responsabilidades na condução dos negócios da instituição.
Ministério Público apura operações do Ueno Bank
O Ministério Público do Paraguai pediu a abertura de uma investigação criminal sobre o banco e solicitou a prisão de dois de seus dirigentes. O foco das apurações está em suspeitas relacionadas à administração da instituição e à concessão de empréstimos para empresas ligadas ao grupo controlador.
Segundo as suspeitas analisadas pelos investigadores, essas operações teriam afetado o patrimônio do Ueno Bank e contribuído para o comprometimento de sua situação financeira. Nesta quinta-feira, o órgão fiscalizador também aceitou um pedido para investigar possíveis crimes financeiros atribuídos ao presidente Santiago Peña.
O avanço das medidas contra o governo levou Peña a apresentar a renúncia antes da conclusão do processo de impeachment. A decisão, contudo, depende do Congresso. A imprensa paraguaia avalia que os parlamentares podem rejeitar o pedido e manter o processo de impedimento, em uma estratégia que teria como objetivo evitar a preservação do foro privilegiado do presidente.
No Paraguai, o ocupante da Presidência que renuncia ao cargo tem direito a uma cadeira de senador vitalício, além da manutenção de direitos legislativos. Por esse motivo, a deliberação do Congresso poderá definir não apenas o desfecho político do governo Peña, mas também as condições jurídicas e institucionais que passarão a acompanhar o presidente após sua saída.
Planalto não deve se pronunciar sobre o caso
Integrantes do Palácio do Planalto descartam, por enquanto, uma manifestação pública do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a crise paraguaia. Caso o governo brasileiro decida transmitir alguma mensagem, a tendência é que a comunicação fique concentrada no Itamaraty, sem pronunciamento direto do chefe do Executivo.
Peña faz parte do grupo de presidentes de direita da América Latina e, durante seu mandato, aproximou a política externa do Paraguai das posições defendidas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Apesar das diferenças políticas em relação a Lula, os dois mantêm uma relação considerada boa e já se reuniram em mais de uma ocasião.
A avaliação predominante no governo brasileiro é de que as mudanças em curso no Paraguai ainda precisam ser observadas antes de qualquer declaração oficial. Assim, a diplomacia brasileira segue acompanhando os desdobramentos, sem indicar intenção de interferir ou de comentar diretamente as decisões adotadas pelas instituições paraguaias.







