Um estudo internacional revelou que o aumento dos níveis de dióxido de carbono (CO2) nos oceanos pode afetar o funcionamento neurológico das lulas, criaturas reconhecidas por sua inteligência no reino animal. A pesquisa indica que a elevação do CO2 na atmosfera resulta na formação de ácido carbônico (H2CO3) ao interagir com a água, levando à redução do pH e ao aumento da acidez nos ambientes marinhos.
Com as mudanças climáticas, a concentração de CO2 na atmosfera tem aumentado, o que, por sua vez, intensifica a acidificação dos oceanos. Experimentos realizados com lulas em condições de acidez semelhantes às previstas para o futuro mostraram que algumas delas apresentaram uma diminuição de até 50% no volume cerebral.
Embora já se soubesse que a acidificação dos oceanos prejudica a sobrevivência de diversas espécies, a descoberta do impacto desse fenômeno no tamanho do cérebro das lulas é uma nova e alarmante evidência. Os dados preliminares do estudo foram apresentados recentemente durante a conferência da Sociedade de Biologia Experimental, realizada em Florença, na Itália.
Para conduzir a pesquisa, os cientistas separaram as lulas em dois grupos: um exposto à acidez atual dos oceanos e outro submetido a níveis de acidez projetados para o ano de 2100. Após um período de três meses, os animais foram removidos e suas cabeças foram analisadas por meio de ressonância magnética. Os resultados mostraram que as lulas do grupo exposto a maior acidez apresentavam cérebros significativamente menores em comparação com o grupo de controle. Em particular, uma espécie, a lula-de-recife-de-barbatana-grande (Sepioteuthis lessoniana), teve uma redução média de 49% no tamanho do cérebro.
Garett Allen, um dos pesquisadores envolvidos no estudo, expressou sua surpresa ao observar que os cérebros das lulas expostas a níveis mais altos de acidez eram praticamente metade do tamanho dos do grupo controle. Ele destacou que essa descoberta não era esperada e que a equipe precisou verificar os resultados com software especializado.
Apesar da redução no volume cerebral, não foram observadas mudanças no tamanho do corpo das lulas. As regiões cerebrais mais afetadas foram os lobos e tratos ópticos, que são fundamentais para o processamento de informações visuais. Essa descoberta está alinhada com pesquisas anteriores que indicaram que altos níveis de CO2 podem comprometer o comportamento de caça das lulas-de-recife-de-barbatana-grande, uma vez que esses animais dependem de informações visuais para localizar e capturar suas presas.
Ainda não se tem clareza sobre os mecanismos que levam à diminuição do volume cerebral, mas Allen sugere que isso pode estar relacionado a limitações genéticas ou a danos oxidativos no cérebro. A equipe de pesquisa pretende investigar esses fatores em estudos futuros, ampliando a compreensão sobre as implicações da acidificação dos oceanos na vida marinha e, em particular, no desenvolvimento neurológico das lulas.









