A exposição ao calor durante a gestação e nos primeiros meses de vida pode ter consequências significativas no desenvolvimento cerebral infantil, conforme revela um estudo realizado pelo Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal), na Espanha. A pesquisa identificou uma associação entre temperaturas elevadas nesse período e um crescimento mais lento do tálamo, uma estrutura cerebral crucial para o processamento de informações sensoriais, além de desempenhar um papel importante em funções como memória, atenção e aprendizado. Os resultados do estudo foram publicados na revista científica Environment International em julho de 2023.
O estudo se baseou em uma coorte de 3.251 crianças participantes do Generation R Study, um projeto de pesquisa realizado na Holanda que acompanha o desenvolvimento de crianças desde a gestação. Os pesquisadores analisaram a temperatura média registrada nas áreas onde as famílias residiam, desde a gravidez até os oito anos e meio de idade das crianças. Em seguida, esses dados foram comparados com exames de ressonância magnética realizados quando os participantes tinham, em média, 10 e 14 anos.
A análise focou em 11 estruturas cerebrais para determinar se a exposição a temperaturas elevadas ou baixas influenciava o crescimento cerebral ao longo da infância. Os resultados indicaram que crianças que estiveram expostas a temperaturas mais altas durante toda a gestação e nos três primeiros meses de vida apresentaram um crescimento mais lento do tálamo entre os 10 e 14 anos.
Além disso, o estudo observou que o crescimento reduzido do tálamo estava associado a um aumento na frequência de comportamentos externalizantes na adolescência, incluindo atitudes agressivas e desrespeito às normas sociais. Os autores do estudo enfatizam que, embora tenham encontrado uma correlação entre os fatores, não foi possível estabelecer uma relação de causa e efeito.
É importante destacar que a estimativa da temperatura foi baseada em dados ambientais das regiões, sem considerar a exposição individual de cada gestante ou criança ao calor. Fatores como uso de ar-condicionado, características das moradias e o tempo que as crianças passavam em ambientes fechados não foram avaliados na pesquisa.
Apesar das limitações, a equipe de pesquisa salienta a relevância dos resultados, que reforçam a necessidade de proteger gestantes e bebês durante períodos de calor intenso. Além disso, os pesquisadores ressaltam a importância de aprofundar as investigações sobre os efeitos das mudanças climáticas no desenvolvimento infantil, uma vez que a frequência e a intensidade das ondas de calor têm aumentado em decorrência das alterações climáticas globais. A compreensão desses impactos é fundamental para a formulação de políticas públicas que visem à saúde e ao bem-estar das crianças em um cenário de crescente aquecimento global.









