A audiência de instrução do pastor, de 51 anos, suspeito de abusar sexualmente de ao menos sete mulheres ao longo de mais de duas décadas em Belo Horizonte, ocorreu nesta terça-feira (28/7). Os supostos crimes teriam sido praticados dentro da igreja onde ele atua como líder religioso, no bairro Jardim Vitória, região Nordeste da capital, e uma nova sessão foi marcada para o dia 1º de dezembro. O réu permanece respondendo ao processo em liberdade, e o caso tramita em segredo de justiça, em razão da natureza dos crimes de violação sexual.
Durante a sessão, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) reiterou o pedido de prisão preventiva do acusado, ainda sem decisão por parte da Justiça. Segundo o conjunto de acusações, há seis casos de estupro, cinco de violação sexual mediante fraude e duas ocorrências de importunação sexual. A instrução contou com a oitiva de duas testemunhas da acusação, entre as quais uma sobrevivente dos crimes.
Contexto do inquérito e status processual
Em entrevista à reportagem de O TEMPO, uma das vítimas relatou que, mesmo diante de fortes indícios e de denúncias de várias fiéis, o pastor continua exercendo a função religiosa e mantendo influência dentro da comunidade. A testemunha, que pediu para não ter o nome divulgado, afirmou que várias mulheres temem sofrer retaliação caso decidam denunciar o que ocorre na igreja. “Muito medo” é a expressão que descreve o ambiente de intimidação citado pela entrevistada.
A primeira denúncia surgiu de uma mulher que, ao longo de anos, foi submetida a exploração moral e sexual; a partir do relato dela, outras fiéis passaram a buscar ajuda policial. Os relatos indicam que os abusos teriam ocorrido por pelo menos 20 anos, tanto dentro da igreja quanto na residência do pastor, instalada no mesmo terreno do templo. Uma das vítimas, identificada apenas como Maria, revelou que aquela igreja foi a primeira que frequentou. Em certa ocasião, o pastor chamou-a para um espaço acima da igreja, onde alguns fiéis moravam, e pediu que ela se sentasse em seu colo.
Dinâmica de abuso e de difamação, conforme a investigação
Conforme os relatos colhidos, o pastor frequentemente alegava que suas ações eram conduzidas pelo Espírito Santo, estando ungido por Deus e sabendo exatamente o que fazia. Em casos de recusa ou denúncia, ele supostamente intimidava as pessoas. Em um episódio envolvendo uma vítima de 12 anos, a mãe de outra frequentadora da igreja também foi citada como vítima, levando a família a deixar o templo após tomar conhecimento dos relatos.
A Polícia Civil identificou um padrão de atuação do suspeito: aproveitar a posição de liderança para persuadir as vítimas, ao mesmo tempo em que difundia mensagens negativas sobre elas entre os demais membros da igreja. A delegada Larissa Mascotte, responsável pelas investigações, descreveu que o objetivo era “contradizer as mulheres” e criar uma “má fama” para que, caso alguém denunciasse, as vítimas já fossem desacreditadas, mantendo o réu impune.
O registro policial aponta ainda que, à medida que as denúncias ganhavam força, a rede de apoio entre fiéis começou a se romper. Uma das vítimas lembrou que, após anos de abusos e de torturas psicológicas, decidiu pôr fim à situação. Ela também revelou que uma amiga de escola, que também frequentava a igreja, já era vítima do pastor; as duas teriam procurado alguém dentro da própria igreja para relatar o que viviam, o que, segundo o relato, intensificou as retaliações contra as denunciantes.
Entre as consequências diretas, a vítima contou ter sido ameaçada pelo pastor com o objetivo de impedir que outras pessoas acreditassem nelas. Em um episódio descrito na investigação, ela afirmou ter recebido “um curso técnico” financiado pelo pastor anos depois, uso que passou a ser apresentado como justificativa para supostas atividades de prostituição. A cronologia aponta que o abuso teria diminuído por volta de 2018, quando a vítima afirma que o agressor não conseguiu mais manter uma ereção, hipótese que atribui à punição divina. Ainda assim, as ameaças psicológicas teriam continuado até 2023, de acordo com o depoimento, quando, segundo ele, teriam terminado.
Durante o depoimento na fase de inquérito, o acusado optou pelo silêncio. A defesa sustentou que ele estaria doente, argumento que, segundo a linha de defesa, poderia justificar sua conduta. As informações já coletadas reforçam a gravidade das acusações, que permanecem sob segredo de justiça enquanto as investigações avançam e novas etapas processuais são definidas pela Justiça.
A Justiça ainda não se manifestou sobre o pedido de prisão preventiva formulado pelo Ministério Público, e não há confirmação de quando o réu poderá ir a julgamento. A próxima sessão, marcada para 1º de dezembro, deve trazer novos testemunhos e elementos que subsidiem a conclusão da instrução processual.







