Pesquisas arqueológicas indicam que, muito antes do desenvolvimento da agricultura, grupos humanos já incluíam répteis como cobras e lagartos em sua alimentação. Um estudo publicado em 17 de agosto na revista Proceedings of the National Academy of Sciences traz evidências de que, há aproximadamente 15 mil anos, os habitantes da cultura natufiana, que habitavam regiões que hoje correspondem à Jordânia, Palestina e Israel, migraram de um estilo de vida nômade para comunidades mais permanentes e menores. Essa mudança no modo de vida coincidiu com a exploração de recursos alimentares locais, incluindo répteis, que passaram a fazer parte de seu cardápio.
A análise de milhares de ossos de répteis encontrados no sítio arqueológico do Terraço de El-Wad, localizado no Monte Carmelo, em Israel, revelou marcas que indicam a intervenção humana na obtenção desses animais. O local apresenta 20 camadas de ocupação humana, datadas de aproximadamente 15 mil a 12 mil anos atrás, permitindo aos pesquisadores acompanhar a continuidade do uso desses recursos ao longo de mais de três mil anos.
Através do exame dos vestígios, os arqueólogos identificaram marcas de ferramentas de sílex — uma rocha sedimentar dura composta de quartzo — em vértebras de espécies como a cobra-chicote (Dolichophis jugularis) e a cobra-de-Montpellier-oriental (Malpolon insignitus). Essas marcas sugerem que os répteis foram deliberadamente abatidos e preparados para o consumo, ao contrário de terem chegado ao local por morte natural ou por serem presas de outros predadores. Além disso, vestígios de lagarto-de-vidro-europeu (Pseudopus apodus), um réptil sem pernas com escamas resistentes, também aparecem com frequência nas diferentes camadas do assentamento, reforçando a hipótese de manipulação intencional desses animais para alimentação.
A coautora do estudo, a arqueóloga Maayan Lev, destacou que a seleção dos répteis pelos grupos natufianos provavelmente não foi aleatória. Segundo ela, esses grupos preferiam animais relativamente grandes, lentos e de baixo risco, características que facilitavam a captura e o manejo. Os répteis menores, como os lagartos, eram mais acessíveis, enquanto os maiores forneciam maior quantidade de carne. Cobras consideradas inofensivas, como as de espécie não venenosa, eram capturadas com frequência, enquanto víboras venenosas aparecem em quantidade significativamente menor nos vestígios arqueológicos.
Os vestígios indicam que essa prática de caça a répteis não foi passageira. Os mesmos tipos de animais aparecem nas diferentes fases de ocupação do sítio do Terraço de El-Wad, demonstrando uma preferência constante ao longo de mais de três mil anos. Essa continuidade sugere que a exploração desses recursos alimentares era uma estratégia habitual, e não uma acumulação aleatória de restos por outros animais ou fatores ambientais.
A descoberta também contribui para compreender a evolução das estratégias alimentares dos grupos natufianos, que, ao permanecerem por períodos mais longos em um mesmo local, passaram a depender mais dos recursos disponíveis na região. A utilização planejada de répteis como fonte de proteína evidencia uma adaptação importante na transição para uma vida mais sedentária, ocorrida antes mesmo do surgimento da agricultura. Assim, o estudo revela que, há cerca de 15 mil anos, os humanos já exploravam de forma consciente e estruturada os animais do ambiente para complementar sua alimentação, marcando um passo importante na evolução de suas estratégias de subsistência.







