Um antigo naufrágio ocorrido há 133 anos voltou a ser foco das discussões sobre o futuro do Complexo Portuário de Itajaí e Navegantes, no Litoral Norte de Santa Catarina. Os destroços do navio Pallas, que permanecem submersos no fundo do rio Itajaí-Açu, representam um obstáculo significativo para as obras de ampliação da capacidade operacional do porto, cujo objetivo é permitir a atracação de embarcações de maior porte. Localizado entre as boias 9 e 11, próximo à Bacia de Evolução nº 2 — área utilizada para manobras de embarcações — o Pallas impede a realização de obras de aprofundamento do leito do rio para 16 metros e de alargamento do canal para 530 metros de diâmetro, melhorias essenciais para aprimorar a segurança e a eficiência da navegação na região.
A remoção do navio, contudo, ainda não possui uma operação definida. O primeiro passo para sua retirada consiste na realização de estudos técnicos detalhados, que visam compreender as condições do que permanece submerso. Em maio, a Universidade do Vale do Itajaí (Univali), o Porto de Itajaí e a Autoridade Portuária Federal firmaram um convênio no valor de aproximadamente R$ 310 mil para a execução dessas análises. Os estudos incluem inspeções subaquáticas para identificar a posição e o estado estrutural dos fragmentos metálicos e madeiras, além de sondagens que ajudarão a entender a relação dos destroços com o leito do rio. Uma análise estrutural também será realizada para avaliar como as partes remanescentes podem responder às técnicas de remoção planejadas, que podem variar desde a retirada de grandes partes até a fragmentação do navio.
A definição do método de remoção é crucial, especialmente considerando que levantamentos anteriores indicaram que o Pallas se partiu ao meio, o que pode dificultar sua recuperação. Além da complexidade técnica, há uma preocupação adicional relacionada ao valor histórico do navio. Como uma embarcação construída na Inglaterra em 1891, o Pallas pertenceu à Companhia Frigorífica Fluminense e tinha como rota o trajeto entre Rio de Janeiro e Buenos Aires, com escalas em Itajaí. Durante sua operação, transportava cargas e passageiros, sendo considerada moderna para a época.
O naufrágio ocorreu em 23 de outubro de 1893, em um contexto marcado pela Revolta da Armada, conflito que opôs setores da Marinha brasileira ao governo do marechal Floriano Peixoto, então presidente da República. Segundo registros históricos, o episódio também teve repercussões em Santa Catarina, onde ocorreram operações militares e confrontos relacionados à revolta. Há relatos de que o Pallas foi abordado e saqueado durante o conflito. Posteriormente, ao tentar navegar durante a noite pelo canal do rio Itajaí-Açu, a embarcação colidiu com pedras submersas próximas ao molhe norte e acabou afundando.
Contudo, há versões distintas sobre as circunstâncias do naufrágio. Segundo o portal NSC Total, o comandante do Pallas teria se recusado a apoiar os revoltosos na tentativa de derrubar Floriano Peixoto, o que teria colocado a embarcação no centro das disputas políticas e militares daquele período. Independentemente da versão, o fato é que os destroços permanecem no leito do rio, impedindo a ampliação do porto e, ao mesmo tempo, preservando um importante vestígio histórico. A retirada do Pallas, portanto, envolve não apenas uma operação de engenharia, mas também a consideração de aspectos patrimoniais, com a necessidade de destinar adequadamente materiais metálicos, madeiras e outros objetos que possam ser recuperados, em articulação com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Marinha do Brasil.
A realização dos estudos e a eventual retirada do navio representam um passo decisivo para a modernização do porto de Itajaí e para a preservação de um episódio relevante da história marítima brasileira, equilibrando interesses de desenvolvimento portuário e preservação patrimonial.








